Gabriel Muniz, Mariana Serra, Profª. Gloria Moraes
Em uma matriz de política externa são necessários elementos que componham a projeção internacional do país. Dentre esses vários elementos vale destacar as ações econômicas, diplomáticas e militares, que, certamente, são as de maior importância. Na matriz de política externa brasileira, podemos verificar tal afirmativa.
Em um tipo de análise histórica, podemos verificar que política externa brasileira sofre inflexões e é marcada pelas bases estabelecidas no início da década de 80, ao longo do governo Geisel (1974-1978), e início do governo Figueiredo (1979-1980). Apesar dessas inflexões, é como se déssemos seguimento a um tipo de trajetória que se modifica, mas também que se perpetua desde Vargas, voltada mais para o desenvolvimento econômico do que para a geopolítica internacional. A mudança só seria mais visível durante um pequeno interregno, durante a PEI (Política Externa Independente), durante o governo Jango, e no início do governo militar, entretanto, durante o decorrer da segunda metade do governo Sarney (1987-1989) podemos observar nova inflexão.
Retomando, no início da década de 80, as relações multilaterais do país eram a de dúvida entre o “terceiro mundismo e a flexibilidade de alianças”[1]. Assim, a política externa brasileira seguia com três linhas básicas:
v - a de Potência Intermediária
v - a de alinhamento com o Terceiro Mundo
v - a de ativismo político baseado em alianças e coalizões, reforçando assim, a presença do país nos órgãos multilaterais.
O Brasil, nessa época, já então estava consolidado como um país industrializado, e sua liderança econômica na América do Sul era inconteste. Isto, ou seja, o fato de haver atingido o 8º. PIB mundial lhe dava no campo econômico a legitimidade de aspirante à potência na hierarquia superior. Porém, para conseguir ser uma potência, não basta apenas ter um bom lugar no ranking dos PIBs mundiais, é preciso bem mais.
Ante de tudo, é necessário dominar a tecnologia de ponta, a maior parte dela decorrente de tecnologia de guerra. Já com essa percepção, o Brasil se engaja no projeto de energia nuclear, reafirmando sua posição de líder no continente sul-americano. O chanceler Azeredo da Silveira percebendo tal necessidade, afirma, em seu discurso de posse, que “elevado nas dimensões de sua economia e do seu poder nacional, projetando-se num mundo onde se estreita a convivência entre nações, não será possível ao Brasil alhear-se do que ocorre em outras áreas”. O Brasil havia, portanto, saído de uma condição de país agrário-exportador e alcançado, em tempo recorde, um lugar de relativa importância em termos políticos e econômicos no sistema mundial.
Desde o pós-Guerra o Brasil, mesmo reconhecendo sua posição de país subdesenvolvido, luta para estabelecer sua “condição de aliado preferencial dos EUA”[2]. Também, graças à sua posição geográfica, passa a ocupar uma posição de destaque no contexto internacional, agindo de forma a estar pronto para ocupar tal posicionamento. A idéia do Brasil como “país intermediário” no cenário internacional ganha força entre políticos e acadêmicos e, em 1982, o então presidente Figueiredo afirma que o país já passara a ser visto como um interlocutor, como um parceiro que será consultado e ouvido cada vez mais.
Para a consolidação como potência intermediária, foi recorrente que o Brasil em sua política externa tivesse participação em alianças e coalizões, hora de países do Terceiro Mundo, hora de países latino-americanos, e estivesse também presente em negociações nos órgãos multilaterais como a ONU, GATT, UNCTEAD, OEA. O objetivo da aproximação do Brasil com o Terceiro Mundo era de alavancar a elevação definitiva do País como nação desenvolvida. No entanto, essa tendência brasileira de participar de alianças e coalizões não significava que o país tivesse de fato envolvido e engajado nas “temáticas e políticas dessas alianças”[3].
Visando ainda firmar sua condição de potência intermediária, o Brasil passou a diversificar suas relações com as grandes potências, reduzindo a intensidade de suas relações com os EUA. Por outro lado, aumentaria seu contato político e econômico com o Japão e com a Europa, e passando também a ampliar suas relações políticas e econômicas com pequenas potências, conduzindo os conflitos sempre de forma moderada e com limites. Essas iniciativas favoreceram o País, assegurando-lhe maior autonomia na condução do seu processo de desenvolvimento no cenário internacional e algum prestígio.
Contudo, ao longo do tempo, procurando alcançar o objetivo de se tornar uma potência intermediária e emergente, o Brasil foi tendo consciência de seus limites e foi praticando uma política externa que buscava um “espaço de manobra” que facilitasse sua capacidade de negociação e projeção internacional, assim como, um alinhamento internacional com o Terceiro Mundo e com a América Latina nos diversos órgãos internacionais e coalizões. Como bem destacou o Secretário de Estado do governo Ford, Henry Kissinger, o Brasil deveria passar a ser considerado “um dos países-chave no mundo ocidental”, ou seja, uma potência intermediária não só emergente como também interlocutora e com possibilidades de exercer um papel hegemõnico na América do Sul.
Referência: SENNES, Ricardo, As Mudanças da política externa Brasileira nos Anos 80 – Uma potência média recém industrializada – UFRGS, Porto Alegre, 2003.
[1] Página 38
[2] Página 39
[3] Página 43
segunda-feira, 27 de abril de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
O Papel do Petróleo na Geopolítica Mundial
O Papel do Petróleo na Geopolítica Americana*
No final do século XIX, o querosene substituiu o óleo de baleia como fonte de energia ao redor do mundo, e assim o petróleo passou a ter um importante papel. Depois, o mundo capitalista daria a esta fonte energética um papel definitivo no mundo, na produção e geração de energia, de derivados e produtos financeiros. Sua importância militar que fez com que o petróleo fosse colocado no centro da geopolítica internacional, já que começou a ser utilizado em navios militares dando mais força e velocidade para aqueles que o utilizavam. Paralela à sua importância geopolítica, o petróleo foi responsável por muitos capítulos da história econômica e dele decorreram inúmeras inovações. Foi também a partir do petróleo que as maiores e mais importantes empresas do mundo moderno foram criadas, pois ter acesso à exploração e comercialização do petróleo era, e é, estar no “jogo” mundial.
No campo da oferta, principalmente nas atividades de extração, exploração e refino, surgiram muitos problemas, já que os poços de petróleo pertecem a territórios e os países que possuem “o ouro negro” passaram a viver num eterno conflito. Num jogo de poder e de disputa territorial, os preços subiram e desceram variando de acordo com a demanda, vinda de todas as partes do mundo, e da oferta controlada por oligopólios e monopólios. Para a manutenção da estabilidade dos preços, essencial era também a estabilidade política e econômica nas áreas de exploração. Depois de acordos entre empresas no Oriente Médio, e também contratos de concessão entre essas empresas estrangeiras e os países detentores do território, houve um período de maior estabilidade.
Dado o jogo de interesses pesados pelo domínio de países produtores de petróleo, e a necessidade de os EUA entrar em áreas já dominadas pelo prinicpais países europeus e suas petrolíferas, num desses episódios houve um acordo: uma empresa estatal iraniana ficaria responsável pela propriedade dos bens e reservas, e os EUA, particularmente, operariam esses campos e cuidariam da comercialização do óleo. Isto causou nova instabilidade na região, com o Irã avançando em suas posições políticas, quase sempre um misto de interesses e religião. A instabilidade e perturbação internacional aumentaram com a retomada de produção de petróleo pela URSS, que passou a ser o segundo maior produtor do mundo. Ou seja, EUA e URSS disputavam também o controle da produção de petróleo.
Os EUA passaram a proteger a renda de seus produtores e a definir cotas destinadas à importação. Em resposta ao que os EUA impunham ao mercado, cinco países criaram a OPEP – Organização dos Países Podutores de Petróleo - com o intuito de sustentar seu preço internacional, ou seja, agora, unidos, tinham capacidade de influenciar a oferta, empurrando os preços do petróleo para cima e para baixo, bastando utilizar a estratégia de embargo. Entretanto, para seus parceiros históricos, o México e o Canadá, os EUA haviam criados facilidades para o estabelecimento do preço óleo, levando outros países dependentes de importação a não se posicionarem a favor dos EUA.
Implusionados pelo conflito, países como a Argélia, Líbia, Iraque e Venezuela encaminharam-se para a nacionalização total e com isso as empresas transnacionais perderam o poder de fixar quantidades de oferta e os preços. Depois de um tempo, o mundo se viu diante de uma crise energética sem precedentes. O preço do barril de petróleo chegou à estratosfera e, para piorar a situação, o dólar havia se desvalorizado duas vezes, fazendo com que o valor dos ativos financeiros de alguns países árabes ficasse muito exposto à moeda americana. Assim, era melhor deixar o óleo sob a terra do que explorá-lo, fazendo reserva e impulsionando o “mercado de futuros’. O “choque petróleo”, de 1973/1974, levou economias desenvolvidas a um longo período de estagnação, com baixo crescimento e países em desenvolvimento sofrendo desequilíbrios externos estruturais, como no caso brasileiro.
Após a Revolução Iraniana e a onda de nacionalização das empresas, os países ocidentais e o governo americano tinham pouco a fazer para garantir o funcionamento estável do mercado. Várias empresas deixavam de atender seus clientes por motivos de ‘força maior’ ou seja a falta de petróleo iraniano devido à guerra. A escassez de óleo atingiu diferentes setores e as empresas demandantes começaram a estocar, o que fez com que a OPEP, formalmente, liberasse seus membros para cobrar o preço que lhes parecesse justo, ou seja, agora eram as regras do mercado, mas do mercado de produtores ligados a OPEP.
Em 1979, aconteceu outra destabilização e com o início da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1980, novamente o mercado entrou em pânico, evitado pelos níveis de estoques acumulados, pela maior ordenação entre os países industrializados e por investimentos pesados em novas fontes de petróleo, como no Mar do Norte e no Alasca. Sobretudo, é bom lembrar, que dada a recessão prolongada, mormente na periferia do sistema, a demanda de petróleo se via em uma trajetória descendente.
Além de novas políticas de conservação de energia, que se desenvolveram ao longo dos anos 70, e desequilíbrios nos balanços de pagamentos, com esforços obssessivos em prol de negociação das dívidas externas, também a mudança da política monetária americana servira como um freio geral. Os EUA aumentaram sua taxa de juros para cerca de 20% ao ano, o que levou o país à sua pior recessão pós-guerra e, consequentemente, levou as demais economias desenvolvidas a se ajustarem ao novo patamar de juros e desenvolverem quadros recessivos. Por sua vez, os países em industrialização, principais fontes de demanda internacional, enfrentaram a pior crise de suas histórias.
Com a produção de petróleo fora da OPEP, os países exportadores se viram enfraquecidos, chegando a ter sua participação de mercado reduzida em mais de 50%. Os preços dos mercados alternativos baratearam levando a OPEP a cortar sua produção, fixando o limite máximo a ser produzido em 18 milhões de bpd, com cotas para todos os seus membros, exceto a Arábia Saudita.
Em 1983, os britânicos, com a produção de petróleo do Mar do Norte, produziram mais do que a Argélia, a Líbia e a Nigéria juntas, e lideraram as reduções de preços. Isso fez com que a OPEP fixasse preços e cotas cada vez menores. Assim ocorreu o fim da antiga estratégia das empresas, a de operação integrada e de limite de oferta. A estratégia que pregava o equilíbrio entre a oferta e a demanda no interior da própria empresa era um modelo obsoleto que a OPEP teria que abandonar. O novo modelo passou a ser o de desintegração comercial, no qual as compras de petróleo passaram a ser realizadas com base em “mercados spot”. Essa mudança teve grande apoio dos EUA , que representavam o maior consumidor e respondiam por mais de 25% da oferta global e via no “spot” condições de ganhos futuros. O petróleo, tal como a moeda, também estava financeirizado.
Todo esse conjunto de fatores gerou o desenvolvimento de uma ordem econômica baseada em mercados à vista e logo após na institucionalização de “mercados futuros”, iniciado pela Nymex. Outra conseqüência da liberalização do mercado americano e da financeirização do mercado foi lançar as empresas em uma onda de fusões e aquisições, concentrando e centralizando o capital e, obviamente, as decisões. A queda dos preços internacionais em um ambiente liberalizado fez com que muitas empresas menores quebrassem, como também a demanda por refinanciamentos junto aos bancos se tornou um fato corriqueiro. Até que, crises bancárias levassem as autoridades americanas a intervir.
Alguns grandes países exportadores encontravam-se endividados e em crise, como o México, e até mesmo a Arábia Saudita, que teve sua receita de 119 bilhões de dólares reduzida para 36 bilhões de dólares, até que em 1995 sua produção foi inferior à inglesa. Isto fez com que a Arábia Saudita mudasse sua estratégia. Os preços deixavam de ser fixados para flutuar de acordo com os milhares de contratos negociados, levando assim os demais países da OPEP a adotaram a mesma estratégia, para poderem adquirir vantagem junto à Inglaterra. Em nova queda de braço, haja vista que os preços começaram a cair drasticamente, a OPEP forçou todos os países produtores independentes a negociar com ela, dando início a nova ordenação de mercado baseada em preços flexíveis. Porém esse sistema de mercado se tornou um problema, pois os preços ficaram sujeitos a grande volatilidade, assim foi atribuído a OPEP, sob a liderança da Arábia Saudita, o papel de reguladora de mercado a partir de um preço politicamente decidido.
Os preços continuamente baixos eram preocupantes, então, em uma reunião do governo George Bush com o governo Saudita, este foi alertado sobre a possibilidade dos EUA, Japão e Europa usarem os preços baixos para aumentarem a taxação sobre o petróleo importado. Com essa notícia, a Arábia Saudita correu para convencer os países exportadores a administrar sua produção de acordo com a demanda global. Com sucesso, os países concordaram e a adesão da URSS viabilizou o acordo e o preço fixado foi de US$ 18 por barril. Depois de muito jogo de poder, o mundo do petróleo entrou numa fase de relativa estabilidade. O mercado flexível permitiu que a relação entre produtores e consumidores fosse dispersa em uma rede de contratos a vista, no mercado de futuro e de derivativos, agora transacionados em tempo real.
Nesse cenário, os EUA viram sua posição hegemônica no mundo tornar-se incontestável. Os acordos militares bilaterais com a Arábia Saudita, Emirados do Golfo, Egito e Israel permitiram-lhe ocupar o vácuo deixado pela saída das tropas inglesas no início dos anos 70 e estabelecer seu “militarismo” na região.
O fim da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1988, parecia anunciar paz na região. Entretanto, em 1990 tropas iraquianas invadiram o Kuwait, o que daria ao Iraque 20% da produção e das reservas mundiais de petróleo, aumentando significantemente o poder de Saddam Hussein no mundo do petróleo. Havia ainda a ameaça de que o mesmo fosse feito com a Arábia Saudita, o que fez os EUA reunir todo o mundo árabe contrário à expansão do Iraque. Em 1991, os americanos lançaram um ataque maciço ao Iraque, que logo depois assinou um cessar fogo. Logo após, as vendas do Iraque passaram a ser controladas pela ONU, ou seja, a liderança americana na região havia se consolidado de vez.
Entre 1992 e 1998, os preços do petróleo flutuaram dentro de uma relativa normalidade. Em 1994, com a economia real dos EUA em crescimento levou a Venezuela a descumprir sua cota na OPEP e passasse a voltar a ser o maior exportador de petróleo para os EUA, cerca de 16%. Como resposta, em 1997 a OPEP decidiu aumentar sua cota de produção sem ter noção das proporções da crise na região da Ásia - Pacífico. O resultado foi o acúmulo de estoques, a queda dos preços e nova onda de centralização de capital, com grandes empresas comprando empresas menores. Para responder à queda de preços, a OPEP realizou cortes na produção, porém a Ásia retomou o crescimento demandando mais e mais petróleo, o que fez com que a oferta continuasse limitada.
Nesse cenário, um evento completamente inesperado, o ataque terrorista às torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, ergueria mais alto a bandeira da doutrina da “guerra preventiva” e a nova ofensiva dos EUA. Preocupados, cada vez mais, com a dependência do fornecimento do petróleo do Oriente Médio, origem dos grupos terroristas, a nova postura norte americana voltou a considerar a necessidade de intervenção armada na região.
O regime talibã, no Afeganistão, mostrava a existência da possibilidade de que países estrategicamente importantes no Oriente Médio fossem conduzidos de forma ‘irracional’, deixando de atender às regras do mercado. A partir desse ponto, uma intervenção militar no Iraque passou a ser considerado pelos EUA um mal necessário. A invasão e ocupação do Iraque por tropas americanas em março de 2003 representavam um passo mais além do que todo o mundo esperava.
No jogo internacional, cada ator tem o seu papel definido e procura adeptos. Para a OPEP cabe garantir o ajuste entre a oferta e a demanda, pois a maior parte das reservas mundiais se encontram na região. Para as empresas, sustentar a expansão da oferta em longo prazo e preços é essencial. Ao governo dos EUA coube exercer o seu “poder de polícia” ou “poder imperial”, garantindo o funcionamento ordenado do mercado e de seus principais agentes. O que vemos, ao início de um novo governo dos EUA e frente à redefinição de sua política externa, é que a “guerra contra o terrorismo”, asssim como a “guerra contra as drogas”, ou até mesmo a grande “ação humanitária” de suas isntituições”, não passam ao largo das diferentes feições do arrebatador jogo dos interesses do petróleo, “o ouro negro”.
* Bruna Sardenberg, Fernanda Lemos e Profª. Gloria Moraes.
No final do século XIX, o querosene substituiu o óleo de baleia como fonte de energia ao redor do mundo, e assim o petróleo passou a ter um importante papel. Depois, o mundo capitalista daria a esta fonte energética um papel definitivo no mundo, na produção e geração de energia, de derivados e produtos financeiros. Sua importância militar que fez com que o petróleo fosse colocado no centro da geopolítica internacional, já que começou a ser utilizado em navios militares dando mais força e velocidade para aqueles que o utilizavam. Paralela à sua importância geopolítica, o petróleo foi responsável por muitos capítulos da história econômica e dele decorreram inúmeras inovações. Foi também a partir do petróleo que as maiores e mais importantes empresas do mundo moderno foram criadas, pois ter acesso à exploração e comercialização do petróleo era, e é, estar no “jogo” mundial.
No campo da oferta, principalmente nas atividades de extração, exploração e refino, surgiram muitos problemas, já que os poços de petróleo pertecem a territórios e os países que possuem “o ouro negro” passaram a viver num eterno conflito. Num jogo de poder e de disputa territorial, os preços subiram e desceram variando de acordo com a demanda, vinda de todas as partes do mundo, e da oferta controlada por oligopólios e monopólios. Para a manutenção da estabilidade dos preços, essencial era também a estabilidade política e econômica nas áreas de exploração. Depois de acordos entre empresas no Oriente Médio, e também contratos de concessão entre essas empresas estrangeiras e os países detentores do território, houve um período de maior estabilidade.
Dado o jogo de interesses pesados pelo domínio de países produtores de petróleo, e a necessidade de os EUA entrar em áreas já dominadas pelo prinicpais países europeus e suas petrolíferas, num desses episódios houve um acordo: uma empresa estatal iraniana ficaria responsável pela propriedade dos bens e reservas, e os EUA, particularmente, operariam esses campos e cuidariam da comercialização do óleo. Isto causou nova instabilidade na região, com o Irã avançando em suas posições políticas, quase sempre um misto de interesses e religião. A instabilidade e perturbação internacional aumentaram com a retomada de produção de petróleo pela URSS, que passou a ser o segundo maior produtor do mundo. Ou seja, EUA e URSS disputavam também o controle da produção de petróleo.
Os EUA passaram a proteger a renda de seus produtores e a definir cotas destinadas à importação. Em resposta ao que os EUA impunham ao mercado, cinco países criaram a OPEP – Organização dos Países Podutores de Petróleo - com o intuito de sustentar seu preço internacional, ou seja, agora, unidos, tinham capacidade de influenciar a oferta, empurrando os preços do petróleo para cima e para baixo, bastando utilizar a estratégia de embargo. Entretanto, para seus parceiros históricos, o México e o Canadá, os EUA haviam criados facilidades para o estabelecimento do preço óleo, levando outros países dependentes de importação a não se posicionarem a favor dos EUA.
Implusionados pelo conflito, países como a Argélia, Líbia, Iraque e Venezuela encaminharam-se para a nacionalização total e com isso as empresas transnacionais perderam o poder de fixar quantidades de oferta e os preços. Depois de um tempo, o mundo se viu diante de uma crise energética sem precedentes. O preço do barril de petróleo chegou à estratosfera e, para piorar a situação, o dólar havia se desvalorizado duas vezes, fazendo com que o valor dos ativos financeiros de alguns países árabes ficasse muito exposto à moeda americana. Assim, era melhor deixar o óleo sob a terra do que explorá-lo, fazendo reserva e impulsionando o “mercado de futuros’. O “choque petróleo”, de 1973/1974, levou economias desenvolvidas a um longo período de estagnação, com baixo crescimento e países em desenvolvimento sofrendo desequilíbrios externos estruturais, como no caso brasileiro.
Após a Revolução Iraniana e a onda de nacionalização das empresas, os países ocidentais e o governo americano tinham pouco a fazer para garantir o funcionamento estável do mercado. Várias empresas deixavam de atender seus clientes por motivos de ‘força maior’ ou seja a falta de petróleo iraniano devido à guerra. A escassez de óleo atingiu diferentes setores e as empresas demandantes começaram a estocar, o que fez com que a OPEP, formalmente, liberasse seus membros para cobrar o preço que lhes parecesse justo, ou seja, agora eram as regras do mercado, mas do mercado de produtores ligados a OPEP.
Em 1979, aconteceu outra destabilização e com o início da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1980, novamente o mercado entrou em pânico, evitado pelos níveis de estoques acumulados, pela maior ordenação entre os países industrializados e por investimentos pesados em novas fontes de petróleo, como no Mar do Norte e no Alasca. Sobretudo, é bom lembrar, que dada a recessão prolongada, mormente na periferia do sistema, a demanda de petróleo se via em uma trajetória descendente.
Além de novas políticas de conservação de energia, que se desenvolveram ao longo dos anos 70, e desequilíbrios nos balanços de pagamentos, com esforços obssessivos em prol de negociação das dívidas externas, também a mudança da política monetária americana servira como um freio geral. Os EUA aumentaram sua taxa de juros para cerca de 20% ao ano, o que levou o país à sua pior recessão pós-guerra e, consequentemente, levou as demais economias desenvolvidas a se ajustarem ao novo patamar de juros e desenvolverem quadros recessivos. Por sua vez, os países em industrialização, principais fontes de demanda internacional, enfrentaram a pior crise de suas histórias.
Com a produção de petróleo fora da OPEP, os países exportadores se viram enfraquecidos, chegando a ter sua participação de mercado reduzida em mais de 50%. Os preços dos mercados alternativos baratearam levando a OPEP a cortar sua produção, fixando o limite máximo a ser produzido em 18 milhões de bpd, com cotas para todos os seus membros, exceto a Arábia Saudita.
Em 1983, os britânicos, com a produção de petróleo do Mar do Norte, produziram mais do que a Argélia, a Líbia e a Nigéria juntas, e lideraram as reduções de preços. Isso fez com que a OPEP fixasse preços e cotas cada vez menores. Assim ocorreu o fim da antiga estratégia das empresas, a de operação integrada e de limite de oferta. A estratégia que pregava o equilíbrio entre a oferta e a demanda no interior da própria empresa era um modelo obsoleto que a OPEP teria que abandonar. O novo modelo passou a ser o de desintegração comercial, no qual as compras de petróleo passaram a ser realizadas com base em “mercados spot”. Essa mudança teve grande apoio dos EUA , que representavam o maior consumidor e respondiam por mais de 25% da oferta global e via no “spot” condições de ganhos futuros. O petróleo, tal como a moeda, também estava financeirizado.
Todo esse conjunto de fatores gerou o desenvolvimento de uma ordem econômica baseada em mercados à vista e logo após na institucionalização de “mercados futuros”, iniciado pela Nymex. Outra conseqüência da liberalização do mercado americano e da financeirização do mercado foi lançar as empresas em uma onda de fusões e aquisições, concentrando e centralizando o capital e, obviamente, as decisões. A queda dos preços internacionais em um ambiente liberalizado fez com que muitas empresas menores quebrassem, como também a demanda por refinanciamentos junto aos bancos se tornou um fato corriqueiro. Até que, crises bancárias levassem as autoridades americanas a intervir.
Alguns grandes países exportadores encontravam-se endividados e em crise, como o México, e até mesmo a Arábia Saudita, que teve sua receita de 119 bilhões de dólares reduzida para 36 bilhões de dólares, até que em 1995 sua produção foi inferior à inglesa. Isto fez com que a Arábia Saudita mudasse sua estratégia. Os preços deixavam de ser fixados para flutuar de acordo com os milhares de contratos negociados, levando assim os demais países da OPEP a adotaram a mesma estratégia, para poderem adquirir vantagem junto à Inglaterra. Em nova queda de braço, haja vista que os preços começaram a cair drasticamente, a OPEP forçou todos os países produtores independentes a negociar com ela, dando início a nova ordenação de mercado baseada em preços flexíveis. Porém esse sistema de mercado se tornou um problema, pois os preços ficaram sujeitos a grande volatilidade, assim foi atribuído a OPEP, sob a liderança da Arábia Saudita, o papel de reguladora de mercado a partir de um preço politicamente decidido.
Os preços continuamente baixos eram preocupantes, então, em uma reunião do governo George Bush com o governo Saudita, este foi alertado sobre a possibilidade dos EUA, Japão e Europa usarem os preços baixos para aumentarem a taxação sobre o petróleo importado. Com essa notícia, a Arábia Saudita correu para convencer os países exportadores a administrar sua produção de acordo com a demanda global. Com sucesso, os países concordaram e a adesão da URSS viabilizou o acordo e o preço fixado foi de US$ 18 por barril. Depois de muito jogo de poder, o mundo do petróleo entrou numa fase de relativa estabilidade. O mercado flexível permitiu que a relação entre produtores e consumidores fosse dispersa em uma rede de contratos a vista, no mercado de futuro e de derivativos, agora transacionados em tempo real.
Nesse cenário, os EUA viram sua posição hegemônica no mundo tornar-se incontestável. Os acordos militares bilaterais com a Arábia Saudita, Emirados do Golfo, Egito e Israel permitiram-lhe ocupar o vácuo deixado pela saída das tropas inglesas no início dos anos 70 e estabelecer seu “militarismo” na região.
O fim da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1988, parecia anunciar paz na região. Entretanto, em 1990 tropas iraquianas invadiram o Kuwait, o que daria ao Iraque 20% da produção e das reservas mundiais de petróleo, aumentando significantemente o poder de Saddam Hussein no mundo do petróleo. Havia ainda a ameaça de que o mesmo fosse feito com a Arábia Saudita, o que fez os EUA reunir todo o mundo árabe contrário à expansão do Iraque. Em 1991, os americanos lançaram um ataque maciço ao Iraque, que logo depois assinou um cessar fogo. Logo após, as vendas do Iraque passaram a ser controladas pela ONU, ou seja, a liderança americana na região havia se consolidado de vez.
Entre 1992 e 1998, os preços do petróleo flutuaram dentro de uma relativa normalidade. Em 1994, com a economia real dos EUA em crescimento levou a Venezuela a descumprir sua cota na OPEP e passasse a voltar a ser o maior exportador de petróleo para os EUA, cerca de 16%. Como resposta, em 1997 a OPEP decidiu aumentar sua cota de produção sem ter noção das proporções da crise na região da Ásia - Pacífico. O resultado foi o acúmulo de estoques, a queda dos preços e nova onda de centralização de capital, com grandes empresas comprando empresas menores. Para responder à queda de preços, a OPEP realizou cortes na produção, porém a Ásia retomou o crescimento demandando mais e mais petróleo, o que fez com que a oferta continuasse limitada.
Nesse cenário, um evento completamente inesperado, o ataque terrorista às torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, ergueria mais alto a bandeira da doutrina da “guerra preventiva” e a nova ofensiva dos EUA. Preocupados, cada vez mais, com a dependência do fornecimento do petróleo do Oriente Médio, origem dos grupos terroristas, a nova postura norte americana voltou a considerar a necessidade de intervenção armada na região.
O regime talibã, no Afeganistão, mostrava a existência da possibilidade de que países estrategicamente importantes no Oriente Médio fossem conduzidos de forma ‘irracional’, deixando de atender às regras do mercado. A partir desse ponto, uma intervenção militar no Iraque passou a ser considerado pelos EUA um mal necessário. A invasão e ocupação do Iraque por tropas americanas em março de 2003 representavam um passo mais além do que todo o mundo esperava.
No jogo internacional, cada ator tem o seu papel definido e procura adeptos. Para a OPEP cabe garantir o ajuste entre a oferta e a demanda, pois a maior parte das reservas mundiais se encontram na região. Para as empresas, sustentar a expansão da oferta em longo prazo e preços é essencial. Ao governo dos EUA coube exercer o seu “poder de polícia” ou “poder imperial”, garantindo o funcionamento ordenado do mercado e de seus principais agentes. O que vemos, ao início de um novo governo dos EUA e frente à redefinição de sua política externa, é que a “guerra contra o terrorismo”, asssim como a “guerra contra as drogas”, ou até mesmo a grande “ação humanitária” de suas isntituições”, não passam ao largo das diferentes feições do arrebatador jogo dos interesses do petróleo, “o ouro negro”.
* Bruna Sardenberg, Fernanda Lemos e Profª. Gloria Moraes.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Bretton Woods, um sistema em questão!
O texto de Paulo Roberto de Almeida* tem como principal objetivo esclarecer a real importância, definições e aplicações do modelo de gestão político-econômico mundial que se deu a partir da conferêcia de Bretton Woods, realizada em 1944, em New Hampshire, nos Estados Unidos, e vigorou durante uma fase circunscrita da história econômica mundial (1946-1973) em um esquema de paridades cambiais fixas, baseada no padrão ouro-dólar.
O texto se alimenta do fato de que Bretton Woods desencadeou o nascimento de duas instituições “irmãs” de caráter monetário e financeiro, o Fundo Monetário Internacional - responsável por assegurar a estabilidade das taxas de câmbio, prover socorro temporário a seus membros em caso de desequilíbrios de balança de pagamentos e facilitar os pagamentos nas transações correntes internacionais - e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, uma instituição auxiliar que viria ser responsável pela aprovação de créditos stand-by ou concessão de créditos e financiamentos estruturais. Ambas instituições, acabaram sendo convertidas em agências especializadas das Nações Unidas, embora com estatuto especial e diferente das demais entidades intergovernamentais.
Os EUA e a Grã-Bretanha foram os “pivôs” da conferência Bretton Woods, sendo importante destacar a tentativa do britânico John Maynard Keynes em, naquela época, instituir uma moeda contábil de referência internacional - o Bancor. No entanto, o máximo acordado foi quanto ao retorno de um regime de paridades correlacionadas entre as moedas (fixas, mas ajustáveis, após aprovação dos membros), tomando como base o dólar, ou o seu equivalente em ouro, à razão de 34 dólares por onça de ouro. Para o autor, a realização dessa aplicação contábil de referência mundial resultou em uma ilusão, uma irrealidade na medida, que não levava em conta as variações no volume e custo de produção de ouro, o crescimento das reservas em dólar de terceiros países em relação aos haveres de ouro dos Estados Unidos (o fenômeno inflacionário foi desconsiderado e imprevisto), ou os diferenciais de produtividade em relação a países mais dinâmicos, que reduziram o poder de compra do dólar.
O texto destaca que o modelo do sistema Bretton Woods nunca funcionou em sua forma pura, ou apenas funcionou durante um espaço de tempo estritamente limitado, em função dos enormes desequilíbrios econômicos acarretados pela Segunda Guerra. Hoje, é possível ver que isto é realidade, dada a dimensão da atual crise financeira mundial desencadeada nos EUA. Denominada de “Subprime”, esta “devorou” a mais pura essência do sistema acordado em Bretton Woods (a regularização financeiro-monetária) e o propósito real das instituições então criadas, tomando como exemplos recentes a Islândia, a Letônia, a Hungria e a Romênia.
Verificamos que a Islândia, país de economia próspera, quebrou em semanas com o colapso do sistema financeiro. O FMI aprovou um empréstimo de US$2.1 bilhões em novembro de 2008, e dinheiro vindo de países nórdicos, do Reino Unido e da Alemanha, fez o socorro chegar a US$10 bilhões. Já a Letônia resgatou do FMI e da Comissão Européia um pacote de 7,5 bilhões de Euros, assim como a Hungria, em novembro de 2008, recebeu um pacote totalizando 25,1 bilhões de Euros do FMI, BIRD e EU, enquanto a Romênia recorreu ao FMI, por um empréstimo de 20 bilhões de Euros. Por sua vez, o próprio FMI recorreu aos seus investidores e solicitou aporte de capital, com o Brasil aportando US$10 bilhões.
O texto cita ainda uma ação realizada, sem autorização do FMI, pela França e Grã-Bretanha, que promoveram desvalorizações cambiais importantes, muitas vezes maiores que os limites autorizados no convênio constitutivo do Fundo. Isto atesta que o modelo de paridades fixas só realmente vigorasse sob controle do FMI no decorrer dos anos 60. Sendo assim, o FMI e o BIRD, instituições criadas em Bretton Woods, podem ser comparadas nesse episódio com a real e atual força das Nações Unidas que, por muito tempo, vem se arrastando sem que de fato exerça o poder pleno que deveria exercer. Assim, o texto mostra como as instituições, financeiras, assim como a ONU, têm seus poderes de influência iguais, ou seja, fragilizados no sistema.
O conselho de diretores do FMI consiste em representação da maioria do capital acionário, obviamente, dominados pelas maiores e mais importantes economias, ou seja, é como um diretório político, não muito diferente do G7, para gerir políticas responsáveis caracterizadas pela liberalização dos intercâmbios, pela diminuição da intervenção do Estado na economia, solidez das políticas fiscais, realismo cambial e ausência de restrições notáveis aos fluxos reais e financeiros. Tendo isso em vista, se percebe quais são os reais fatores de influência e poder, anteriormente já comparados aos da ONU.
No decorrer da década de 60, o FMI se viu impotente para exercer sua função designada em Bretton Woods, ou seja, de prover socorro temporário a seus membros em caso de desequilíbrios de balança de pagamentos e facilitar os pagamentos nas transações correntes internacionais. Por ocasião da crise da libra esterlina, ocorrida em 1960-1961, os principais bancos centrais foram os reais protagonistas da salvação, dando origem ao chamado Grupo dos Dez (G10) e tirando a autonomia antes declarada ao FMI.
Sendo, a crise da libra esterlina apenas uma prévia, o “sistema de Bretton Woods entrou finalmente em colapso em agosto de 1971, quando sem prévio aviso os EUA declararam não mais honrar o compromisso assumido em 1944 e suspenderam unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro. Sendo assim, desde 1973 após vários esforços e tentativas de restaurar o equilíbrio com base em novas paridades, a economia mundial vive num regime de ausência total de paridades correlacionadas – um “não-sistema” monetário internacional. Embora, a maioria dos países adote um regime de flutuação cambial, vários outros, em especial os em desenvolvimento, continuam a vincular suas moedas a algumas divisas fortes, geralmente o dólar, como a América Latina, mas também no caso de outras áreas geográficas, o Euro ou ao Iene, e desde um passado recente ao Yuan chinês.” O que pode acabar selando a anarquia monetária e cambial vivida desde o desmantelamento do modelo de Bretton Woods e os perigos inerentes aos regimes de flutuação, “sujos” ou “limpos”, isto é, com ou sem intervenção das autoridades financeiras. Isto pode levar a uma concentração dos regimes monetários nacionais em torno das quatro grandes moedas da atualidade: o dólar, o euro, o iene e o yuan.
O outro conceito relativo a Bretton Woods é de ordem mais política do que monetária e refere-se à atuação prática e operacional – por vezes ideológica, assim como todos os conceitos envolvidos em Bretton Woods – das duas organizações criadas em 1944 para cuidar das moedas e das finanças internacionais. Pois também havia o lado que compreendia o comércio, efetivamente criada na reunião de Havana, em 1948, mas nunca ratificada em seu formato original, apenas implementada, muito tempo depois em 1995, como Organização Mundial do Comércio. A idéia era a de um sistema baseado, tanto quanto possível, na abertura dos mercados em regime de economia privada, na livre conversibilidade de moedas, na ausência de discriminações, e de restrições quantitativas ou de barreiras não tarifarias ao comércio de bens e serviços. Igualmente, fazia referência à definição e manutenção de políticas econômicas solidas e responsáveis, de molde a evitar graves desequilíbrios internos ou externos que pudessem comprometer a economia mundial e os fluxos de comércio entre os países, mas que não interessava, principalmente, naquele momento, aos EUA.
Por tudo isso, o texto conclui que o modelo de Bretton Woods não tem tanto a ver com a presumida “liberdade de mercados”, mas sim com o mau funcionamento desses mesmos mercados. O BIRD e o FMI – que nunca chegou a ser um “emprestador de capitais de última instância”, como queria Keynes – são chamados, precisamente quando os mercados falharam ou se mostraram incapazes de cumprir suas funções alegadamente saneadoras ou corretoras de desequilíbrios.
Tendo em vista essas informações, o atual cenário global nos mostra a realidade proveniente de que quando os mais ricos detêm o poder, as políticas giram em torno de si mesmo ou seus interesses, até mesmo para cobrir as falhas e incapacidades de fiscalização do mercado ao socorrer economias como a Islândia, Hungria, Romênia e Letônia e pedir ajuda àqueles que, como o Brasil, na crise financeira brasileira de 1998-1999, se viu nas mãos do FMI, do BIRD e do BID, que em parte conteram com financiamentos parciais a crise. Há indícios de que a ordem global está em constante processo de mudança e esperamos que seja de progresso, visando um “novo” Bretton Woods, em Copenhagen, no final de 2009. Igualmente, esperamos que funcione conforme propriamente e originalmente redigido. Porque até então, órgãos internacionais criados com um propósito de progresso, tais como FMI, BIRD, OMC e ONU, têm constantemente sido desafiados e indiferentes quando acionados, se vendo em uma crise tão profunda em termos de autonomia quanto a atual crise financeira.
* Paulo Roberto de Almeida – disponível em http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/778BrettonWoods.html
Luiz Felipe de Andrade Dutra
Disciplina: Introdução à Política Externa do Brasil Profª: Gloria Moraes
O texto se alimenta do fato de que Bretton Woods desencadeou o nascimento de duas instituições “irmãs” de caráter monetário e financeiro, o Fundo Monetário Internacional - responsável por assegurar a estabilidade das taxas de câmbio, prover socorro temporário a seus membros em caso de desequilíbrios de balança de pagamentos e facilitar os pagamentos nas transações correntes internacionais - e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, uma instituição auxiliar que viria ser responsável pela aprovação de créditos stand-by ou concessão de créditos e financiamentos estruturais. Ambas instituições, acabaram sendo convertidas em agências especializadas das Nações Unidas, embora com estatuto especial e diferente das demais entidades intergovernamentais.
Os EUA e a Grã-Bretanha foram os “pivôs” da conferência Bretton Woods, sendo importante destacar a tentativa do britânico John Maynard Keynes em, naquela época, instituir uma moeda contábil de referência internacional - o Bancor. No entanto, o máximo acordado foi quanto ao retorno de um regime de paridades correlacionadas entre as moedas (fixas, mas ajustáveis, após aprovação dos membros), tomando como base o dólar, ou o seu equivalente em ouro, à razão de 34 dólares por onça de ouro. Para o autor, a realização dessa aplicação contábil de referência mundial resultou em uma ilusão, uma irrealidade na medida, que não levava em conta as variações no volume e custo de produção de ouro, o crescimento das reservas em dólar de terceiros países em relação aos haveres de ouro dos Estados Unidos (o fenômeno inflacionário foi desconsiderado e imprevisto), ou os diferenciais de produtividade em relação a países mais dinâmicos, que reduziram o poder de compra do dólar.
O texto destaca que o modelo do sistema Bretton Woods nunca funcionou em sua forma pura, ou apenas funcionou durante um espaço de tempo estritamente limitado, em função dos enormes desequilíbrios econômicos acarretados pela Segunda Guerra. Hoje, é possível ver que isto é realidade, dada a dimensão da atual crise financeira mundial desencadeada nos EUA. Denominada de “Subprime”, esta “devorou” a mais pura essência do sistema acordado em Bretton Woods (a regularização financeiro-monetária) e o propósito real das instituições então criadas, tomando como exemplos recentes a Islândia, a Letônia, a Hungria e a Romênia.
Verificamos que a Islândia, país de economia próspera, quebrou em semanas com o colapso do sistema financeiro. O FMI aprovou um empréstimo de US$2.1 bilhões em novembro de 2008, e dinheiro vindo de países nórdicos, do Reino Unido e da Alemanha, fez o socorro chegar a US$10 bilhões. Já a Letônia resgatou do FMI e da Comissão Européia um pacote de 7,5 bilhões de Euros, assim como a Hungria, em novembro de 2008, recebeu um pacote totalizando 25,1 bilhões de Euros do FMI, BIRD e EU, enquanto a Romênia recorreu ao FMI, por um empréstimo de 20 bilhões de Euros. Por sua vez, o próprio FMI recorreu aos seus investidores e solicitou aporte de capital, com o Brasil aportando US$10 bilhões.
O texto cita ainda uma ação realizada, sem autorização do FMI, pela França e Grã-Bretanha, que promoveram desvalorizações cambiais importantes, muitas vezes maiores que os limites autorizados no convênio constitutivo do Fundo. Isto atesta que o modelo de paridades fixas só realmente vigorasse sob controle do FMI no decorrer dos anos 60. Sendo assim, o FMI e o BIRD, instituições criadas em Bretton Woods, podem ser comparadas nesse episódio com a real e atual força das Nações Unidas que, por muito tempo, vem se arrastando sem que de fato exerça o poder pleno que deveria exercer. Assim, o texto mostra como as instituições, financeiras, assim como a ONU, têm seus poderes de influência iguais, ou seja, fragilizados no sistema.
O conselho de diretores do FMI consiste em representação da maioria do capital acionário, obviamente, dominados pelas maiores e mais importantes economias, ou seja, é como um diretório político, não muito diferente do G7, para gerir políticas responsáveis caracterizadas pela liberalização dos intercâmbios, pela diminuição da intervenção do Estado na economia, solidez das políticas fiscais, realismo cambial e ausência de restrições notáveis aos fluxos reais e financeiros. Tendo isso em vista, se percebe quais são os reais fatores de influência e poder, anteriormente já comparados aos da ONU.
No decorrer da década de 60, o FMI se viu impotente para exercer sua função designada em Bretton Woods, ou seja, de prover socorro temporário a seus membros em caso de desequilíbrios de balança de pagamentos e facilitar os pagamentos nas transações correntes internacionais. Por ocasião da crise da libra esterlina, ocorrida em 1960-1961, os principais bancos centrais foram os reais protagonistas da salvação, dando origem ao chamado Grupo dos Dez (G10) e tirando a autonomia antes declarada ao FMI.
Sendo, a crise da libra esterlina apenas uma prévia, o “sistema de Bretton Woods entrou finalmente em colapso em agosto de 1971, quando sem prévio aviso os EUA declararam não mais honrar o compromisso assumido em 1944 e suspenderam unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro. Sendo assim, desde 1973 após vários esforços e tentativas de restaurar o equilíbrio com base em novas paridades, a economia mundial vive num regime de ausência total de paridades correlacionadas – um “não-sistema” monetário internacional. Embora, a maioria dos países adote um regime de flutuação cambial, vários outros, em especial os em desenvolvimento, continuam a vincular suas moedas a algumas divisas fortes, geralmente o dólar, como a América Latina, mas também no caso de outras áreas geográficas, o Euro ou ao Iene, e desde um passado recente ao Yuan chinês.” O que pode acabar selando a anarquia monetária e cambial vivida desde o desmantelamento do modelo de Bretton Woods e os perigos inerentes aos regimes de flutuação, “sujos” ou “limpos”, isto é, com ou sem intervenção das autoridades financeiras. Isto pode levar a uma concentração dos regimes monetários nacionais em torno das quatro grandes moedas da atualidade: o dólar, o euro, o iene e o yuan.
O outro conceito relativo a Bretton Woods é de ordem mais política do que monetária e refere-se à atuação prática e operacional – por vezes ideológica, assim como todos os conceitos envolvidos em Bretton Woods – das duas organizações criadas em 1944 para cuidar das moedas e das finanças internacionais. Pois também havia o lado que compreendia o comércio, efetivamente criada na reunião de Havana, em 1948, mas nunca ratificada em seu formato original, apenas implementada, muito tempo depois em 1995, como Organização Mundial do Comércio. A idéia era a de um sistema baseado, tanto quanto possível, na abertura dos mercados em regime de economia privada, na livre conversibilidade de moedas, na ausência de discriminações, e de restrições quantitativas ou de barreiras não tarifarias ao comércio de bens e serviços. Igualmente, fazia referência à definição e manutenção de políticas econômicas solidas e responsáveis, de molde a evitar graves desequilíbrios internos ou externos que pudessem comprometer a economia mundial e os fluxos de comércio entre os países, mas que não interessava, principalmente, naquele momento, aos EUA.
Por tudo isso, o texto conclui que o modelo de Bretton Woods não tem tanto a ver com a presumida “liberdade de mercados”, mas sim com o mau funcionamento desses mesmos mercados. O BIRD e o FMI – que nunca chegou a ser um “emprestador de capitais de última instância”, como queria Keynes – são chamados, precisamente quando os mercados falharam ou se mostraram incapazes de cumprir suas funções alegadamente saneadoras ou corretoras de desequilíbrios.
Tendo em vista essas informações, o atual cenário global nos mostra a realidade proveniente de que quando os mais ricos detêm o poder, as políticas giram em torno de si mesmo ou seus interesses, até mesmo para cobrir as falhas e incapacidades de fiscalização do mercado ao socorrer economias como a Islândia, Hungria, Romênia e Letônia e pedir ajuda àqueles que, como o Brasil, na crise financeira brasileira de 1998-1999, se viu nas mãos do FMI, do BIRD e do BID, que em parte conteram com financiamentos parciais a crise. Há indícios de que a ordem global está em constante processo de mudança e esperamos que seja de progresso, visando um “novo” Bretton Woods, em Copenhagen, no final de 2009. Igualmente, esperamos que funcione conforme propriamente e originalmente redigido. Porque até então, órgãos internacionais criados com um propósito de progresso, tais como FMI, BIRD, OMC e ONU, têm constantemente sido desafiados e indiferentes quando acionados, se vendo em uma crise tão profunda em termos de autonomia quanto a atual crise financeira.
* Paulo Roberto de Almeida – disponível em http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/778BrettonWoods.html
Luiz Felipe de Andrade Dutra
Disciplina: Introdução à Política Externa do Brasil Profª: Gloria Moraes
sábado, 4 de abril de 2009
Entrevista Padovani
Oi Turma,
Estou colocando a entrevista do Padovani no "Conta Corrente", os comentários dele sobre o G20 são importantes para nossa discussão.
Beijos,
Prof. Glória .
Estou colocando a entrevista do Padovani no "Conta Corrente", os comentários dele sobre o G20 são importantes para nossa discussão.
Beijos,
Prof. Glória .
Assinar:
Comentários (Atom)