Gabriel Muniz, Mariana Serra, Profª. Gloria Moraes
Em uma matriz de política externa são necessários elementos que componham a projeção internacional do país. Dentre esses vários elementos vale destacar as ações econômicas, diplomáticas e militares, que, certamente, são as de maior importância. Na matriz de política externa brasileira, podemos verificar tal afirmativa.
Em um tipo de análise histórica, podemos verificar que política externa brasileira sofre inflexões e é marcada pelas bases estabelecidas no início da década de 80, ao longo do governo Geisel (1974-1978), e início do governo Figueiredo (1979-1980). Apesar dessas inflexões, é como se déssemos seguimento a um tipo de trajetória que se modifica, mas também que se perpetua desde Vargas, voltada mais para o desenvolvimento econômico do que para a geopolítica internacional. A mudança só seria mais visível durante um pequeno interregno, durante a PEI (Política Externa Independente), durante o governo Jango, e no início do governo militar, entretanto, durante o decorrer da segunda metade do governo Sarney (1987-1989) podemos observar nova inflexão.
Retomando, no início da década de 80, as relações multilaterais do país eram a de dúvida entre o “terceiro mundismo e a flexibilidade de alianças”[1]. Assim, a política externa brasileira seguia com três linhas básicas:
v - a de Potência Intermediária
v - a de alinhamento com o Terceiro Mundo
v - a de ativismo político baseado em alianças e coalizões, reforçando assim, a presença do país nos órgãos multilaterais.
O Brasil, nessa época, já então estava consolidado como um país industrializado, e sua liderança econômica na América do Sul era inconteste. Isto, ou seja, o fato de haver atingido o 8º. PIB mundial lhe dava no campo econômico a legitimidade de aspirante à potência na hierarquia superior. Porém, para conseguir ser uma potência, não basta apenas ter um bom lugar no ranking dos PIBs mundiais, é preciso bem mais.
Ante de tudo, é necessário dominar a tecnologia de ponta, a maior parte dela decorrente de tecnologia de guerra. Já com essa percepção, o Brasil se engaja no projeto de energia nuclear, reafirmando sua posição de líder no continente sul-americano. O chanceler Azeredo da Silveira percebendo tal necessidade, afirma, em seu discurso de posse, que “elevado nas dimensões de sua economia e do seu poder nacional, projetando-se num mundo onde se estreita a convivência entre nações, não será possível ao Brasil alhear-se do que ocorre em outras áreas”. O Brasil havia, portanto, saído de uma condição de país agrário-exportador e alcançado, em tempo recorde, um lugar de relativa importância em termos políticos e econômicos no sistema mundial.
Desde o pós-Guerra o Brasil, mesmo reconhecendo sua posição de país subdesenvolvido, luta para estabelecer sua “condição de aliado preferencial dos EUA”[2]. Também, graças à sua posição geográfica, passa a ocupar uma posição de destaque no contexto internacional, agindo de forma a estar pronto para ocupar tal posicionamento. A idéia do Brasil como “país intermediário” no cenário internacional ganha força entre políticos e acadêmicos e, em 1982, o então presidente Figueiredo afirma que o país já passara a ser visto como um interlocutor, como um parceiro que será consultado e ouvido cada vez mais.
Para a consolidação como potência intermediária, foi recorrente que o Brasil em sua política externa tivesse participação em alianças e coalizões, hora de países do Terceiro Mundo, hora de países latino-americanos, e estivesse também presente em negociações nos órgãos multilaterais como a ONU, GATT, UNCTEAD, OEA. O objetivo da aproximação do Brasil com o Terceiro Mundo era de alavancar a elevação definitiva do País como nação desenvolvida. No entanto, essa tendência brasileira de participar de alianças e coalizões não significava que o país tivesse de fato envolvido e engajado nas “temáticas e políticas dessas alianças”[3].
Visando ainda firmar sua condição de potência intermediária, o Brasil passou a diversificar suas relações com as grandes potências, reduzindo a intensidade de suas relações com os EUA. Por outro lado, aumentaria seu contato político e econômico com o Japão e com a Europa, e passando também a ampliar suas relações políticas e econômicas com pequenas potências, conduzindo os conflitos sempre de forma moderada e com limites. Essas iniciativas favoreceram o País, assegurando-lhe maior autonomia na condução do seu processo de desenvolvimento no cenário internacional e algum prestígio.
Contudo, ao longo do tempo, procurando alcançar o objetivo de se tornar uma potência intermediária e emergente, o Brasil foi tendo consciência de seus limites e foi praticando uma política externa que buscava um “espaço de manobra” que facilitasse sua capacidade de negociação e projeção internacional, assim como, um alinhamento internacional com o Terceiro Mundo e com a América Latina nos diversos órgãos internacionais e coalizões. Como bem destacou o Secretário de Estado do governo Ford, Henry Kissinger, o Brasil deveria passar a ser considerado “um dos países-chave no mundo ocidental”, ou seja, uma potência intermediária não só emergente como também interlocutora e com possibilidades de exercer um papel hegemõnico na América do Sul.
Referência: SENNES, Ricardo, As Mudanças da política externa Brasileira nos Anos 80 – Uma potência média recém industrializada – UFRGS, Porto Alegre, 2003.
[1] Página 38
[2] Página 39
[3] Página 43
segunda-feira, 27 de abril de 2009
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