O Papel do Petróleo na Geopolítica Americana*
No final do século XIX, o querosene substituiu o óleo de baleia como fonte de energia ao redor do mundo, e assim o petróleo passou a ter um importante papel. Depois, o mundo capitalista daria a esta fonte energética um papel definitivo no mundo, na produção e geração de energia, de derivados e produtos financeiros. Sua importância militar que fez com que o petróleo fosse colocado no centro da geopolítica internacional, já que começou a ser utilizado em navios militares dando mais força e velocidade para aqueles que o utilizavam. Paralela à sua importância geopolítica, o petróleo foi responsável por muitos capítulos da história econômica e dele decorreram inúmeras inovações. Foi também a partir do petróleo que as maiores e mais importantes empresas do mundo moderno foram criadas, pois ter acesso à exploração e comercialização do petróleo era, e é, estar no “jogo” mundial.
No campo da oferta, principalmente nas atividades de extração, exploração e refino, surgiram muitos problemas, já que os poços de petróleo pertecem a territórios e os países que possuem “o ouro negro” passaram a viver num eterno conflito. Num jogo de poder e de disputa territorial, os preços subiram e desceram variando de acordo com a demanda, vinda de todas as partes do mundo, e da oferta controlada por oligopólios e monopólios. Para a manutenção da estabilidade dos preços, essencial era também a estabilidade política e econômica nas áreas de exploração. Depois de acordos entre empresas no Oriente Médio, e também contratos de concessão entre essas empresas estrangeiras e os países detentores do território, houve um período de maior estabilidade.
Dado o jogo de interesses pesados pelo domínio de países produtores de petróleo, e a necessidade de os EUA entrar em áreas já dominadas pelo prinicpais países europeus e suas petrolíferas, num desses episódios houve um acordo: uma empresa estatal iraniana ficaria responsável pela propriedade dos bens e reservas, e os EUA, particularmente, operariam esses campos e cuidariam da comercialização do óleo. Isto causou nova instabilidade na região, com o Irã avançando em suas posições políticas, quase sempre um misto de interesses e religião. A instabilidade e perturbação internacional aumentaram com a retomada de produção de petróleo pela URSS, que passou a ser o segundo maior produtor do mundo. Ou seja, EUA e URSS disputavam também o controle da produção de petróleo.
Os EUA passaram a proteger a renda de seus produtores e a definir cotas destinadas à importação. Em resposta ao que os EUA impunham ao mercado, cinco países criaram a OPEP – Organização dos Países Podutores de Petróleo - com o intuito de sustentar seu preço internacional, ou seja, agora, unidos, tinham capacidade de influenciar a oferta, empurrando os preços do petróleo para cima e para baixo, bastando utilizar a estratégia de embargo. Entretanto, para seus parceiros históricos, o México e o Canadá, os EUA haviam criados facilidades para o estabelecimento do preço óleo, levando outros países dependentes de importação a não se posicionarem a favor dos EUA.
Implusionados pelo conflito, países como a Argélia, Líbia, Iraque e Venezuela encaminharam-se para a nacionalização total e com isso as empresas transnacionais perderam o poder de fixar quantidades de oferta e os preços. Depois de um tempo, o mundo se viu diante de uma crise energética sem precedentes. O preço do barril de petróleo chegou à estratosfera e, para piorar a situação, o dólar havia se desvalorizado duas vezes, fazendo com que o valor dos ativos financeiros de alguns países árabes ficasse muito exposto à moeda americana. Assim, era melhor deixar o óleo sob a terra do que explorá-lo, fazendo reserva e impulsionando o “mercado de futuros’. O “choque petróleo”, de 1973/1974, levou economias desenvolvidas a um longo período de estagnação, com baixo crescimento e países em desenvolvimento sofrendo desequilíbrios externos estruturais, como no caso brasileiro.
Após a Revolução Iraniana e a onda de nacionalização das empresas, os países ocidentais e o governo americano tinham pouco a fazer para garantir o funcionamento estável do mercado. Várias empresas deixavam de atender seus clientes por motivos de ‘força maior’ ou seja a falta de petróleo iraniano devido à guerra. A escassez de óleo atingiu diferentes setores e as empresas demandantes começaram a estocar, o que fez com que a OPEP, formalmente, liberasse seus membros para cobrar o preço que lhes parecesse justo, ou seja, agora eram as regras do mercado, mas do mercado de produtores ligados a OPEP.
Em 1979, aconteceu outra destabilização e com o início da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1980, novamente o mercado entrou em pânico, evitado pelos níveis de estoques acumulados, pela maior ordenação entre os países industrializados e por investimentos pesados em novas fontes de petróleo, como no Mar do Norte e no Alasca. Sobretudo, é bom lembrar, que dada a recessão prolongada, mormente na periferia do sistema, a demanda de petróleo se via em uma trajetória descendente.
Além de novas políticas de conservação de energia, que se desenvolveram ao longo dos anos 70, e desequilíbrios nos balanços de pagamentos, com esforços obssessivos em prol de negociação das dívidas externas, também a mudança da política monetária americana servira como um freio geral. Os EUA aumentaram sua taxa de juros para cerca de 20% ao ano, o que levou o país à sua pior recessão pós-guerra e, consequentemente, levou as demais economias desenvolvidas a se ajustarem ao novo patamar de juros e desenvolverem quadros recessivos. Por sua vez, os países em industrialização, principais fontes de demanda internacional, enfrentaram a pior crise de suas histórias.
Com a produção de petróleo fora da OPEP, os países exportadores se viram enfraquecidos, chegando a ter sua participação de mercado reduzida em mais de 50%. Os preços dos mercados alternativos baratearam levando a OPEP a cortar sua produção, fixando o limite máximo a ser produzido em 18 milhões de bpd, com cotas para todos os seus membros, exceto a Arábia Saudita.
Em 1983, os britânicos, com a produção de petróleo do Mar do Norte, produziram mais do que a Argélia, a Líbia e a Nigéria juntas, e lideraram as reduções de preços. Isso fez com que a OPEP fixasse preços e cotas cada vez menores. Assim ocorreu o fim da antiga estratégia das empresas, a de operação integrada e de limite de oferta. A estratégia que pregava o equilíbrio entre a oferta e a demanda no interior da própria empresa era um modelo obsoleto que a OPEP teria que abandonar. O novo modelo passou a ser o de desintegração comercial, no qual as compras de petróleo passaram a ser realizadas com base em “mercados spot”. Essa mudança teve grande apoio dos EUA , que representavam o maior consumidor e respondiam por mais de 25% da oferta global e via no “spot” condições de ganhos futuros. O petróleo, tal como a moeda, também estava financeirizado.
Todo esse conjunto de fatores gerou o desenvolvimento de uma ordem econômica baseada em mercados à vista e logo após na institucionalização de “mercados futuros”, iniciado pela Nymex. Outra conseqüência da liberalização do mercado americano e da financeirização do mercado foi lançar as empresas em uma onda de fusões e aquisições, concentrando e centralizando o capital e, obviamente, as decisões. A queda dos preços internacionais em um ambiente liberalizado fez com que muitas empresas menores quebrassem, como também a demanda por refinanciamentos junto aos bancos se tornou um fato corriqueiro. Até que, crises bancárias levassem as autoridades americanas a intervir.
Alguns grandes países exportadores encontravam-se endividados e em crise, como o México, e até mesmo a Arábia Saudita, que teve sua receita de 119 bilhões de dólares reduzida para 36 bilhões de dólares, até que em 1995 sua produção foi inferior à inglesa. Isto fez com que a Arábia Saudita mudasse sua estratégia. Os preços deixavam de ser fixados para flutuar de acordo com os milhares de contratos negociados, levando assim os demais países da OPEP a adotaram a mesma estratégia, para poderem adquirir vantagem junto à Inglaterra. Em nova queda de braço, haja vista que os preços começaram a cair drasticamente, a OPEP forçou todos os países produtores independentes a negociar com ela, dando início a nova ordenação de mercado baseada em preços flexíveis. Porém esse sistema de mercado se tornou um problema, pois os preços ficaram sujeitos a grande volatilidade, assim foi atribuído a OPEP, sob a liderança da Arábia Saudita, o papel de reguladora de mercado a partir de um preço politicamente decidido.
Os preços continuamente baixos eram preocupantes, então, em uma reunião do governo George Bush com o governo Saudita, este foi alertado sobre a possibilidade dos EUA, Japão e Europa usarem os preços baixos para aumentarem a taxação sobre o petróleo importado. Com essa notícia, a Arábia Saudita correu para convencer os países exportadores a administrar sua produção de acordo com a demanda global. Com sucesso, os países concordaram e a adesão da URSS viabilizou o acordo e o preço fixado foi de US$ 18 por barril. Depois de muito jogo de poder, o mundo do petróleo entrou numa fase de relativa estabilidade. O mercado flexível permitiu que a relação entre produtores e consumidores fosse dispersa em uma rede de contratos a vista, no mercado de futuro e de derivativos, agora transacionados em tempo real.
Nesse cenário, os EUA viram sua posição hegemônica no mundo tornar-se incontestável. Os acordos militares bilaterais com a Arábia Saudita, Emirados do Golfo, Egito e Israel permitiram-lhe ocupar o vácuo deixado pela saída das tropas inglesas no início dos anos 70 e estabelecer seu “militarismo” na região.
O fim da guerra entre o Irã e o Iraque, em 1988, parecia anunciar paz na região. Entretanto, em 1990 tropas iraquianas invadiram o Kuwait, o que daria ao Iraque 20% da produção e das reservas mundiais de petróleo, aumentando significantemente o poder de Saddam Hussein no mundo do petróleo. Havia ainda a ameaça de que o mesmo fosse feito com a Arábia Saudita, o que fez os EUA reunir todo o mundo árabe contrário à expansão do Iraque. Em 1991, os americanos lançaram um ataque maciço ao Iraque, que logo depois assinou um cessar fogo. Logo após, as vendas do Iraque passaram a ser controladas pela ONU, ou seja, a liderança americana na região havia se consolidado de vez.
Entre 1992 e 1998, os preços do petróleo flutuaram dentro de uma relativa normalidade. Em 1994, com a economia real dos EUA em crescimento levou a Venezuela a descumprir sua cota na OPEP e passasse a voltar a ser o maior exportador de petróleo para os EUA, cerca de 16%. Como resposta, em 1997 a OPEP decidiu aumentar sua cota de produção sem ter noção das proporções da crise na região da Ásia - Pacífico. O resultado foi o acúmulo de estoques, a queda dos preços e nova onda de centralização de capital, com grandes empresas comprando empresas menores. Para responder à queda de preços, a OPEP realizou cortes na produção, porém a Ásia retomou o crescimento demandando mais e mais petróleo, o que fez com que a oferta continuasse limitada.
Nesse cenário, um evento completamente inesperado, o ataque terrorista às torres do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, ergueria mais alto a bandeira da doutrina da “guerra preventiva” e a nova ofensiva dos EUA. Preocupados, cada vez mais, com a dependência do fornecimento do petróleo do Oriente Médio, origem dos grupos terroristas, a nova postura norte americana voltou a considerar a necessidade de intervenção armada na região.
O regime talibã, no Afeganistão, mostrava a existência da possibilidade de que países estrategicamente importantes no Oriente Médio fossem conduzidos de forma ‘irracional’, deixando de atender às regras do mercado. A partir desse ponto, uma intervenção militar no Iraque passou a ser considerado pelos EUA um mal necessário. A invasão e ocupação do Iraque por tropas americanas em março de 2003 representavam um passo mais além do que todo o mundo esperava.
No jogo internacional, cada ator tem o seu papel definido e procura adeptos. Para a OPEP cabe garantir o ajuste entre a oferta e a demanda, pois a maior parte das reservas mundiais se encontram na região. Para as empresas, sustentar a expansão da oferta em longo prazo e preços é essencial. Ao governo dos EUA coube exercer o seu “poder de polícia” ou “poder imperial”, garantindo o funcionamento ordenado do mercado e de seus principais agentes. O que vemos, ao início de um novo governo dos EUA e frente à redefinição de sua política externa, é que a “guerra contra o terrorismo”, asssim como a “guerra contra as drogas”, ou até mesmo a grande “ação humanitária” de suas isntituições”, não passam ao largo das diferentes feições do arrebatador jogo dos interesses do petróleo, “o ouro negro”.
* Bruna Sardenberg, Fernanda Lemos e Profª. Gloria Moraes.
terça-feira, 21 de abril de 2009
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