Gabriel Netto Muniz, Leonardo Pereira e Gloria Moraes¨
As relações entre o Brasil e o Iraque figuram como um capítulo especial da história recente da política externa brasileira. Se atualmente a importância do Iraque para o Brasil é reduzida, no passado, mormente nos primeiros anos da década de 1980, a posição do país árabe, em termos de economia e de estratégia militar, era bastante diversa. Os que pensam que foram as crises do petróleoque determinaram a história do relacionamento entre os dois países, acerta em parte, mas não totalmente. Sem dúvida que o petróleo representou um item especial no fluxo de comércio entre os dois países, mas a expansão da economia brasileira e a procura por novos mercados teve um peso no movimento de aproximação.
Além da exportação de manufaturados, inclusive de duráveis, o Brasil exportou serviços, mormente os de engenharia. A Mendes Júnior, por exemplo, assinou contrato, em 1981, para a construção de 128 quilômetros da Expressway, ferrovia que vinha da fronteira com a Jordânia até a fronteira do Kuwait. Entretanto, dado o fraturamento e turbulência da região, as relações não eram simples. Depois de um tempo, o Iraque começou a atrasar os pagamentos, por ter passado a concentrar suas despesas orçamentárias na guerra contra seu vizinho, o Irã.
O então presidente do Brasil, João Figueiredo, escreveu uma carta a Saddam Hussein, pleiteando a solução das pendências. Entretanto, a situação se agravou, em 1987, pois a construtora brasileira suspendeu as obras e deu início ao processo de cobrança na Corte Internacional de Comércio, em Paris. Hussein irritou-se perante tal atitude e exigiu, então, que a Mendes Júnior retomasse as obras, ameaçando cortar o fornecimento de petróleo para o Brasil. Vale dizer, o país receberia petróleo do Iraque, que descontaria os valores devidos do passivo negociado junto ao Banco do Brasil. Todavia, com a II Guerra do Golfo, em 1991, a Mendes Júnior se viu, frente às difíceis condições de segurança, obrigada a abandonar os canteiros de obras e retirar todos os seus funcionários do Iraque.
Porém o Iraque representou para o Brasil uma oportunidade em pelo menos dois aspectos: i) fornecimento de petróleo a preços oficiais, mesmo em tempos de crise no mercado internacional; e ii) mercado consumidor para exportações de produtos e serviços brasileiros. Isso porque o Iraque era um Estado altamente revisionista e, portanto, isolado, o que significava um importante espaço livre de atuação da diplomacia brasileira junto a um produtor de petróleo. Com o tempo, o Iraque receberia atenção privilegiada por parte da diplomacia brasileira, da Petrobras e dos demais órgãos do governo. Na verdade, o Iraque permitia ao Brasil garantir um maior equilíbrio em sua balança comercial, pois aquele país aceitava comprar produtos e contratava os serviços brasileiros.
Nos anos 80, o Iraque era um dos poucos países que não exigia garantia de crédito de bancos estrangeiros para contratos firmados com o Brasil, sendo o Itamaraty o agente que intermediava as negociações. Assim, em muitos momentos, a despeito de qualquer resistência do Itamaraty, que preferia concentrar a agenda bilateral em assuntos econômicos, os interesses do Iraque eram principalmente políticos, pois não havia uma dissociação clara entre economia e política, por parte do país do Oriente.Nesse aspecto, por exemplo, a questão palestina para o Brasil foi sensivelmente influenciada pelo seu relacionamento com o Iraque.
Em poucas palavras, nem os déficits comerciais contra o Brasil nem as pendências das dívidas iraquianas (com empresas e com o governo brasileiros) são capazes de indicar, isoladamente, se o relacionamento econômico entre os dois países foi prejudicial ou lucrativo ao Brasil. Levando-se em consideração a importância estratégica do petróleo importado para a economia brasileira e comparando com o que ocorreu com os demais países do Oriente Médio, o relacionamento brasileiro-iraquiano trouxe substanciais dividendos para o Brasil, contribuindo para o seu objetivo de complementação do desenvolvimento econômico pela política externa. Para se chegar a um balanço do relacionamento entre o Brasil eo Iraque, deve-se levar em consideração, portanto, um contexto estratégico e econômico mais amplo que simples relações diplomáticas.
Fontes:
MERCADANTE, A. A, CELLI Jr., U e ARAUJO, L. R - Bocos Econômicos e Integração na América Latina, Àfrica e Ásia - JURUÀ, Curitiba, 2006.
¨ Trabalho apresentado para a disciplina de Política Externa Brasileira, do curso de Relações Internacionais da ESPM-Rio, turma RI5E, Profª. Gloria Moraes.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
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Bom texto e boa análise!
ResponderExcluirAliás, a exportação de serviços com a Mendes Júnior nos anos 80 nos remete aos casos mais recentes de exportações de serviços na América Latina (Odebrecht, Petrobras), com o mesmo impacto do viés político / nacionalista - vide nacionalizações das refinarias da Petrobras na Bolívia e o caso da expulsão da Odebrecht do Equador.
Manter relações comerciais e fazer investimentos vultosos em países politicamente instáveis vale a pena?
Gian Carlos