segunda-feira, 18 de maio de 2009

Políticas Anticíclicas e Longo Prazo

JORNAL DO BRASIL (RJ) • ECONOMIA • 10/5/2009 • ESPM • 00:00:00 Políticas fiscais anticíclicas e longo prazo
Gloria Moraes ECONOMISTA A crise financeira e o volume de riqueza destruída nos mercados financeiros levaram os governos a usarem políticas anticíclicas para protegerem as economias internas, abaladas pela retração dos fluxos de comércio e pela escassez de crédito. No Brasil, a queda da produção industrial pôs em cheque a rígida condução da política monetária e levou o governo a adotar políticas que, no curto prazo, pusessem um freio na retração da produção, tentando manter o emprego e a renda sob controle. Além do alargamento do crédito, inclusive da queda da taxa Selic, desejada por produtores e setores do governo, a renúncia fiscal foi adotada para setores-chave que reúnem elevada capacidade de encadeamento, como a indústria automotiva. A redução do IPI de automóveis levou ao aumento das promoções, descontos e prazos para os consumidores. Mesmo sem que o governo impusesse compromisso de manutenção do emprego ou a velha redução dos turnos de trabalho, a medida, também adotada para a "linha branca", parece uma decisão acertada no curto prazo. O IBGE publicou sua série mostrando que houve recuperação industrial, ainda que muito lenta para compensar as perdas acumuladas de outubro de 2008 a março de 2009. Pelos dados, verificamos que a resposta do setor automobilístico foi bastante positiva, de 7%, superada apenas pelo setor farmacêutico, com 9%. Já se fala até na volta do terceiro turno de trabalho nas indústrias do ABC. Por um lado, essa política fiscal pode, num curto período de tempo, estimular setores industriais que dependem de crédito, escasso também no mercado doméstico após o agravamento da crise. Por outro, é inegável que há de comprometer os níveis de superávit primário que até então o governo praticara, já que se trata de um tipo de renúncia fiscal a favor da produção, emprego, renda e consumo. São escolhas que no curto prazo os governos se vêem obrigados a fazer, dependendo das bases de apoio e convicções de seus policy makers. Se alguns se preocupam com o déficit das contas públicas no longo prazo, me parece que o governo, na condução de sua política macroeconômica, tem sido bastante conservador, e não houve ruptura na composição de suas forças internas. Os próximos passos do governo deverão ser para equilibrar a recomposição não só de suas contas públicas, mas, antes de tudo, desenvolver uma política industrial que possibilite um salto qualitativo, gerando demandas governamentais pelos produtos made in Brazil e contrariando previsões de que no longo prazo cairão as exportações brasileiras de bens duráveis. Seria bom o governo pensar em condicionar o alongamento da redução de IPI a novas práticas produtivas. O BNDES está preparado para fazer uma política industrial mais agressiva, com redução de custos e qualificação de mão-de-obra. Se isso for feito, não há problema em comprometer o superávit primário, elevado até para padrões internacionais.

Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes

Palavra do gestor:
Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes
Alexandre E. Santo15/05/2009
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Em períodos de crise severa, como a atual, uma série de teorias, mitos, dogmas e paradoxos são questionados e revisitados para embaralhar ainda mais a cabeça dos investidores, o que dificulta a vida do profissional que trabalha com aconselhamento financeiro. Nessas horas, quando muitos paradigmas são bombardeados quase que diariamente, é preciso separar o joio do trigo, ou seja, selecionar o que é para ser levado em conta, para não poluir a análise. O pior é que, nas grandes dificuldades, alguns apelam para a famosa "sensibilidade". Recordo-me de um antigo professor que dizia que o único sujeito que ganhou dinheiro com "feelings" foi o Morris Albert, autor da canção que levava esse nome.
Aqui mesmo, nesta coluna, vários colegas discutiram alguns desses tópicos como a importância das empresas pagarem bons dividendos, mitos sobre governança corporativa, entre outros assuntos. Pretendo contribuir com um aspecto que tem a ver com o recente rali da bolsa.
No estudo da macroeconomia, salientam-se alguns famosos paradoxos. Um dos mais conhecidos é o da poupança, que ensina que quando ela está em processo de formação, a economia se ressente, pois é como se houvesse um vazamento de recursos (um agente econômico guardando dinheiro implica que ele consumirá menos, o que gerará menos riqueza). A despeito de não podermos afirmar que é a formação de poupança a responsável pela criação dos investimentos, empiricamente o que se observa é que os países com alto grau de crescimento possuem elevado nível de poupança em relação ao PIB. Assim, podemos inferir que, num período de revés econômico, tal paradoxo ganhe relevância.
Outro ponto que merece destaque, em especial neste momento, diz respeito à discussão sobre a baixa eficácia da política monetária no longo prazo - o paradoxo de Gibson. De forma simples, pode ser assim explicado: a emissão monetária/redução dos juros em magnitude importante provocará mais investimentos produtivos e expansão da renda por meio do efeito-liquidez. Assim sendo, no curto prazo, a política monetária seria eficiente. No longo prazo, contudo, o aumento da renda provocará um aumento de consumo e na demanda por crédito, o que muito provavelmente pressionará as taxas de juros reais. Adicione-se a este efeito-renda um aumento das expectativas inflacionárias, o que obrigará o Banco Central a elevar os juros nominais, contraindo a demanda agregada. Daí o efeito paradoxal.
Em minha visão, as posturas adotadas pelos principais bancos centrais - reduzindo drasticamente as taxas de juros nos últimos meses - estão provocando um brutal efeito-liquidez, com impactos significativos sobre os sistemas financeiros e os ativos negociados. Lembremo-nos que nos últimos anos as bolsas de valores foram extremamente beneficiadas pela elevada liquidez internacional e até mesmo por operações de "carry-trade". A meu ver, esse é o principal fator para o recente rali dos mercados acionários. Mas por quê? Qual a diferença de agora?
A importante diferença é que, no passado, os "valuations" referendavam a alta das ações, ou seja, o chamado fundamento era um aliado de primeira ordem. Comprava-se não somente por uma questão de alocação de portfólio, de não ter o que fazer com o dinheiro pelos juros reais serem baixíssimos, mas, sim, porque os lucros e a geração de caixa eram crescentes e corroboravam o investimento. Agora não mais! Fiz um estudo com as estimativas de lucros projetados das principais casas de análise do mercado e a média encontrada para 2009 sinaliza uma redução de 17% nos lucros das empresas brasileiras. Algumas, como a Vale, podem perder o dobro dessa média.
Os dois paradoxos acima citados podem estar se entrelaçando, o que é perigoso. Essa crise não é trivial, como a da década de 1980, por exemplo. Naquela época, a redução das taxas de juros podia elevar o nível de renda, uma vez que o endividamento privado americano era perto de 100% do PIB. Agora, como essa relação é quase o triplo, os agentes econômicos endividados poderão se aproveitar de juros menores para reduzir suas dívidas abissais (paradoxo da poupança). Ademais, com o excesso de liquidez se juntando aos enormes gastos públicos, poderemos observar, num período de tempo mais curto do que se supõe, os juros se elevando.
Neste momento, me parece que há muito "achismo" em relação à bolsa pouquíssimo fundamentado. Faz-me recordar uma entrevista folclórica de um jogador após a partida. Perguntado pelo repórter o que ele havia achado, ele respondeu: "Eu não achei nada, mas o goleiro achou um crucifixo na grande área. Qualquer hora acho alguma coisa..."
Alexandre Espirito Santo é diretor do Curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ e economista da Way Investimentos
E-mail aesanto@wayinves timentos.com.br

Prof. Alexandre Espirito Santo
Diretor Acadêmico do curso de RI

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Poder Global

O PODER GLOBAL*
Leonardo Medeiros, Pedro Xavier e Profª. Gloria Moraes

Muito já foi dito sobre o tema “poder global” e, durante a década de 90, muito mais foi discutido com respeito à questão da hegemonia dos EUA, sob o domínio das armas e do dólar, garantindo sua supremacia bélica e econômica no cenário mundial. Logo após a grande crise de 1929, cujo boom foi crescente nos primeiro anos da década de 30, os EUA reiniciaram seu projeto de potência, dessa vez com maior voracidade e com motores “a todo vapor”. Ao final da II Guerra Mundial, com a necessidade de reconstrução produtiva da Europa e de reestruturação interna do seu território, os EUA e seus capitais, representados por suas corporations, começaram a exercer de fato seu poder.
Mesmo que tenha havido limites em Bretton Woods e que a URSS tenha forçado o reconhecimento de potência igualmente vitoriosa no pós II Guerra, os EUA exerceram seu poder no mundo capitalista sem muitos questionamentos. Até o momento em que o projeto norte americano se sentiu ameçado por movimentos nacionalistas, que marcaram o fim do colonialismo europeu, e que muitas vezes guinavam em direção a projetos socialistas, os EUA continuou com sua vontade expansiva. Entretanto, a disputa por áreas de interesse com a URSS, seguidamente na Ásia, e, particularmente, sua derrota na guerra do Vietnam enfraqueceram seu poder em nível global. A discussão ao final dos anos 1970 tendia a apontar o fim da hegmonia dos EUA e o surgimento de uma nova potência capitalista. Na competição, ferozmente, apareciam a Alemanha e o Japão, os derrotados na II Guerra e parceiro privilegiados dos EUA.
Em outra vertente, as crises do petróleo, de 1973/1974 e de 1979, redefiniram geopoliticamente a presença dos europeus, dos EUA e da URSS no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que a criação da OPEP tentava impor novos padrões de repartição e de participação em sua maior riqueza: o “ouro negro”. Quando os EUA abandonaram as regras acordadas em Bretton Woods e rompeu com o “padrão dólar fixo”, caminhando em direção à adoçã do padrão flutuante, seu novo projeto de retomada de hegemonia já se encontrava em curso. Mesmo que aparentemente a grande potência navegasse com redução de marcha de seus motores, atravessando uma fase de desaceleração de crescimento, outra arrancada estava em curso.
É importante frisar que a grande aliança formada pelos EUA, Japão e Alemanha no período pós II Guerra funcionou de forma vigorosa até a década de 1970, quando Alemanha e Japão, ao mesmo tempo em que ganhavam o mundo com seus produtos carregados de inovações tecnológicas, perdiam o fôlego e começavam a amargar seus processos de declínio no crescimento, sem que deixassem, porém, de ser dois grandes players. Como nos ensinou Norbert Elias, no jogo da competição entre os Estados nacionais, quem não sobe cai. Depois dos acordos Plaza-Paris, quando os EUA enquadraram o marco alemão e o yen, na década de 90, ambas as economias quase chegaram à estagnação, com o Japão sofrendo mais que a Alemanha, que ainda se valia de vantagens comparativas dentro do território. A recessão em que o mundo foi jogado, depois da recuperação do dólar como padrão monetário e da abertura financeira e comercial de seus mercados, deram tempo e fôlego para que a economia norte-americana se recuperasse e utilizasse as vantagens comparativas que tinha, exercendo o seu poder de fato. Impôs ao mundo seus padrões e não precisou ele próprio travar os seus mercados, pois seu projeto já se encontrava em marcha.
Quase quatro décadas depois, novamente, se discute sobre a quebra do poder do “hegemon”. Historiadores, sociólogos, pesquisadores e economistas, muitos dizem que a “era da supremacia hegemônica dos EUA” chegou ao fim. Dada a crise global surgida no epicentro do sistema, cuja origem está nos EUA e nos mercados de capitais globais desregulamentados e finaceirizados, não podemos afirmar que esteja à vista o fim da hegemonia dos EUA. Ainda vemos fundos, reservas e investimentos utilizando os mesmos padrões de operação norte-americanos. Ainda vemos suas ferramentas de gestão se difundindo como padrão global. Como se decreta o fim da hegemonia norte-americana quando ainda vemos seus títulos do Tesouro circulando e sendo negociados como garantias de não-perdas? Quem se iguala hoje em poderio bélico aos EUA e quando alguém poderá se igualar?
Vale lembrar que vivemos em um mundo onde cada um possui suas metas e objetivos, onde já passamos por vários momentos com diferentes “hegemons”, e que a estabilidade hegemônica da Inglatera, no século XIX, dificlmente se reproduzirá. Desde o Império Romano até o “Império” dos EUA, já vimos diversas potências surgindo e declinando, porém todos de forma belicosa e nenhum com tanto poder quanto os EUA ainda possuem. Quebrou-se o “padrão-ouro” e, com um sistema cada vez mais especulativo surgiu o “padrão-dólar”, depois flutuando ao sabor da oferta e da demanda e impulsionando a riqueza financeirizada. Abalrroada, sem dúvida, mas que outra moeda tem a força global do dólar? O euro, que nem na União Européia consegue ter uma coordenação clara. O yen? Quando surge na Ásia o yuan ancorado no dólar?
É próprio do “sistema mundo”, a não ser em raros momentos, a convivência anárquica entre diversos Estados nacionais, cada qual com seus interesses e lutando pro sua soberania, buscando seus espaços e ampliação de áreas de influência em um sistema cada vez mais globalizado, daí, potencializar ações é essencial para a sobrevivência. O caráter cíclico que se deu à necessidade de estabilidade sistêmica, pelos defensores da teoria da estabilidade hegemônica do poder global, não faz considerações importantes, como o dito por Fiori (2008)“ [...] em geral, esta teoria destaca as contribuições positivas do hegemon, para o bom funcionamento e para “governaça global” do sistema, sem dar maior atenção à dinâmica contraditória das relações existentes entre o “hegemon” e os demais estados que participam do sistema mundial. Por isto também, esta teoria funcional e evolucionista da “hegemonia”, não consegue dar conta do movimento contínuo de competição, luta e expansão dos estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de “grandes potências”.”
Portanto, antes de falarmos sobre questões relativas à hegemonia e poder, precisamos definir, o que e de quem é o poder? Em um mundo sistêmico onde cada um impõe sua força como pode, onde cada Estado nacional pretende ser soberano, ou pelo menos conquistar a soberania sobre seu território, não pode ser julgado, nem condenado a “cumprir pena”, pois a única forma que temos para chegar de fato ao ponto no qual podemos dizer que um Estado nação é soberano e detentor do poder global é quando há um acordo entre todos ou então quando todos pela força das armas e da moeda se subordinam às ações e desejos do Estado eleito. Porém, enquanto isso não chega, se é que chegará, continuemos a chamar de “hegemon” ao estado nacional que mais perto dessa condição se paroxima. Hoje, mesmo em crise, os EUA continuam a ser o detentor da maior economia, do maior poder bélico e não houve condições de desvalorização de sua moeda. O que nos mostra Fiori é que o que podemos fazer é o dever de casa, não quebrar correntes de comércio e esperar que um possível “novo Bretton Woods” normatize o poder global. Assim, cada Estado nacional poderá prosseguir com seu projeto de crescimento e, o Brasil, ou nós brasileiros possamos mais uma vez deixar de trocar óleo por frango e exportar ambos, até que a próxima crise exija novamente os mesmo processos reparadores e de tomada de decisão pelos quais passamos atualmente.


* Baseado em texto do Prof. J. L. Fiori denominado Sobre o Poder Global (2008)

A Importância da Reunião do G20

A Importância da Reunião do G20*
Vinícius Gregory, Carlos Felipe Monteiro e Profª. Gloria Moraes


A última reunião do G-20, realizada no início de abril, em Londres, teve uma grande importância devido à crise global. Integram o G20 os países que agregam a maior parte da população e da economia global, logo, era objetivo primeiro delimitar e encontrar soluções para a atual crise financeira e ajustar salvaguardas de forma a proteger ao máximo a economia real, resguardando, quando possível e ao máximo, os níveis de produção e do emprego. Segundo o primeiro ministro britânico a reunião poderia ter a importância de Bretton Woods, que foi responsável por três décadas consecutivas de desenvolvimento capitalista. Entretanto, para outros, não havia a menor possibilidade de sair desse encontro algo aproximado que fosse de Bretton Woods, quando o sistema redefiniu um novo padrão monetário, criou instituições e apostou nos EUA como um possível hegemon.
Para a maioria dos analistas, o encontro deveria ter um fim parecido com outro, ocorrido também em Londres, no qual os EUA e os paises europeus não conseguiram entrar em um consenso para a adoção de medidas que minorassem e pusessem um freio à Grande Depressão. Roosevelt já se encontrava na Presidência dos EUA e não aceitou os compromissos sobre o câmbio e sobre as taxas de juros propostos pelos europeus, pois iriam atrapalhar as medidas de emergência que vinha adotando para reativar a economia norte-americana. O problema da atual reunião é que há grandes divergências entre os três principais pólos econômicos: os EUA, a União Européia e a China. Além disso, não há também consenso dentro dos próprios governos e a União Européia, mais uma vez, mostrou e explicitou suas divergências.
Para um segmento de Washington, o setor financeiro privado é uma prioridade, por isso a resistência de estatizar grandes bancos falidos, em outro, não se vê muitas alternativas. O pacote financeiro foi lançado com o objetivo de o governo financiar a compra de títulos podres e restabelecer a confiança interbancária, e por isto está disposto a aceitar os riscos de um aumento inflacionário para não interferir na liberdade dos investidores. Outros segmentos, por sua vez, desejam que haja maior regulamentação dos mercados financierizados. Na Inglaterra, por sua vez, a resistência as estatizações é menor e, igualmente, estão dispostos a assumir pacotes trilionários, mas em relação à regulamentação internacional do sistema financeiro, idéias apoiadas também pelo Japão, há divergências.
Para outros paises europeus, o setor financeiro privado é um mal necessário e novos pacotes trilionários estão fora de questão, pois a estabilidade do Euro e as metas de inflação são prioridade. A China, por sua vez pensa em medidas alternativas ao dólar, a longo prazo, sugerindo a criação de uma nova moeda de reserva internacional, sendo apoiada por países dos denominados, antigamente, de “segundo” e “terceiro mundo”, pois para as atuais potências emergentes a prioridade é o crescimento econômico e o nível de renda e de emprego que importam. Para o Brasil que também não desregulamentou todo o mercado fincnaiero e tem um banco central mais rígido, apoiar os países europeus, principalmente a França e a Alemanha foi essencial para o seu projeto de “potência intermediária”. Já a Índia teve participação discreta, mas com certo alinhamento com os EUA e com a Inglaterra.
Apesar das boas intenções e vontade de cooperação, fato é que os resultados não foram o esperado, ou melhor, um bom analista diria que foram os possíveis. O novo presidente dos EUA, Barack Obama, não conseguiu o compromisso dos demais países de aportarem recursos e medidas de estímulo equivalentes a 2% do PIB. Igualmente, porque não era interesse, ninguém, e muito menos a China, promoveu um debate sério sobre a criação de uma nova moeda. No total, os governos se comprometeram com aportarem 1,1 trilhão de dólares e o FMI deve dispor de mais 500 bilhões de dólares em linhas de crédito. Finalmente, foi anunciado também um início de regulamentação financeira internacional, mas que, como era esperado, não tem parâmetros definidos.
Analisando o encontro do G20 em Londres pudemos observar que o principal ganho para a governança global foi consolidar e institucionalizar o Grupo como o foro central de coordenação e deliberação sobre temas econômicos e financeiros. E a principal vitória política para os países emergentes, dentre os quais está o Brasil, foi a de participar em pé de igualdade com os países desenvolvidos. Tomar decisões em um grupo maior, com mais heterogeneidade e atualizado com a nova divisão do poder mundial e não em um grupo excludente, como é o G8, foi sem dúvida bastante positivo. Igualmente favorável foi a decisão acerca do fortalecimento financeiro do FMI, à medida que significa mais crédito disponível para ajudar as economias com problemas, mas antes de tudo poruqe também no Fundo há um novo rearranjo de poder, mesmo que não seja aparente. O anúncio com prazo para reforma da estrutura de voz e voto do FMI, como defendido pelo Brasil, mostra que a instituição terá que abrir suas decisões a novos interesses.


* Baseado em matéria da revista Carta Capital de 07 de abril de 2009 – Gambiarra Global.

domingo, 3 de maio de 2009

Uma pequena cronologia das Relações Exteriores do Brasil

Fabio Borges e Profª. Gloria Moraes


Depois do golpe militar, mas que contou com o apoio da classe média e de um Congresso praticamente acuado, uma junta militar reafirmou o nome do general Humberto Castelo Branco como novo presidente do Brasil. Pressionado pelo FMI e pelo Banco Mundial, uma de suas primeiras medidas foi revogar a Lei de Remessas de Lucros, motivo de conflitos entre os capitais estrangeiros aqui instalados e o governo Goulart, e promulgar uma nova lei. Dando garantias aos investimentos das empresas estrangeiras que aqui estavam e desbloqueando a livre movimentação de lucros e capitais, estabilizando as finanças externas, as relações com os EUA foram entrando no prumo e o novo governo passou a contar com a confiança da comunidade financeira internacional.
No campo diplomático, o governo representou um verdadeiro recuo, deixando a Política Externa Independente (PEI) que procurara agregar o depois denominado de Terceiro Mundo, para se tornar uma espécie de “parceiro privilegiado” dos EUA. Em menor escala, as relações comercais com a URSS foram mantidas, porém, em menor escala, e reafirmado que no campo ideológico nosso alinhamento com os EUA era incondicional. Internamente, dado o clima repressivo, vários órgãos estavam sendo expurgados e o Ministério das Relações Exteriores (MRE), já à época com “funcionários de carreira” e bons quadros técnicos, foi um dos poucos a sair ileso. A razão da tolerância foi a percepção os quadros do Itamaraty quase que se assemelhavam a “militares a paisana”, dada no meio diplomático a existência de rígida estrutura hierárquica e de alto nível de especialização.
Hélio Beltrão e Delfim Neto foram nomeados, respectivamente, ministros do Planejamento e da Fazenda e, logo após um período de reformas institucionais e estruturais, do PAEG, atenuaram a política de seus antecessores, atingindo altos indicadores de crescimento do PIB, colocando em andamento, com o “milagre”, nosso projeto de “potência intermediária”. A partir de então, as relações internacionais do Brasil com os EUA apresentaram maior distanciamento no campo comercial, pois com interesses demarcados, o País recusou assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, hja vista que desde o Plano de Metas de JK já existiam planos para investir nesta área, em Mambucaba, agora mais real.
Com o governo Médice, no auge do “milagre”, o PIB brasileiro atingiu cerca de 10% de crescimento ao ano. Nenhuma dúvida que, pavimentado por investimentos pesados de governos anteriores, com forte formação bruta de capital fixo (FBKF) e com novas capacidades de financiamento geradas pela reforma bancário-financeira, aliado a um período anterior de grande capcidade ociosa, consolidou-se o tripé econômico, formado por empresas estatais, empresas transnacionais e de capital privado nacional.
Com a economia “de vento em pôpa” e os crescentes investimentos, criou-se uma nova classe média consumidora, com padrão elvado de consumo, fazendo com que fazendo a produção de bens de consumo populares crescessem abaixo da média, enquanto a de artigos de luxo crescessem o dobro. Sem que nos afastássemos dos EUA ideologicamente, a política externa brasileira avançou ampliando as estruturas de comércio e aprofundando as relações com as finanças internacionais. No seu projeto de “potência intermediária”, o Brasil, depois da internacionalização do capital e das finanças, investiu na construção de uma indústria armamentista nacional e de novas fontes energéticas, como a nuclear. Os investimentos foram maximizados com o estreitamento das relações do Brasil com a Alemanha e Japão e teve como impacto, incialmente e aparentemente simbólico a ampliação do território marítimo brasileiro. Hoje, iniciada a exploração do campo de Tupi, no pré-sal, temos dúvidas se a luta pelas “200 milhas” era apenas simbólica ou já prenunciava a existência de grandes jazidas em água sprofundas distantes da costa brasileira.
Sem teorias conspiratórias ou especulações, o crescimento brasileiro era “autorizado” pelos EUA, pois o restante da América Latina ou era governada por esquerdistas ou estavam à beira de uma guerra civil, não restando nenhum outro parceiro, para seguir a doutrina Nixon e consolidar um capitalismo vigoroso na região. O governo Médice chegava ao fim e uma de suas últimas ações foi a aproximação do Brasil com os “países árabes”, não apenas com interesse no petróleo abundante naquela região, mas necessitando também de novos mercados para o excedente da indústria de bens duráveis brasileiras, que produzia em escala.
O governo do general Geisel seria marcado pelo processo de abertura política. Ouvindo o recado das urnas e ao general Golbery do Couto e Silva, defensor da crença em que história brasileira se movimentava em ciclos centralizados e descentralizados e que o ciclo de centralização estava no seu fim, teve início, não sem resistências internas, um processo de distensão. Era preciso encerrar o ciclo militar antes que as forças armadas ficassem comprometidas como instituição. Com a “guerra do Yon Kipur”, as crises do petróleo acabariam com o excedente de capitais externos e a facilidade de empréstimos no exterior, ou seja, colocando um freio no crescimento econômico, um instrumento legitimador do regime militar. Dependentes de recursos externos e sem condições de avançar na produção de seriados, como locomotivas, e de embarcações, bens de capital pesados, pressionado pelas montadoras aqui instaladas, os governos militares foram adiando os investimentos em transportes hidroviários e ferroviários, dando atenção aos transportes rodoviário e individual, o que implicou num maior consumo de petróleo e futurosa desequilíbrios na balança comercial.
Embora tenha herdado um PIB de 133 bilhões de dólares, uma inflação de 13% anuais e a dívida externa de 12 bilhões de dólares, o “milagre econômico” legara ao apís, assim como o Plano de Metas de JK, problemas estruturais, que foram adiados ciclo após ciclo de crescimento, pois se apostava num modelo que empregava energia e tecnologia, igualmente, baratas e importadas. Por isto, tentando reverter tardiamente este quador, em 1974, com o II PND o Brasil procura aprofundar em outro sentido os vários ciclos em que o processo de industrialização se deu por substituição de importação. Tenta diversificar as fontes de energia e lança um ambicioso programa para a construção de hidroelétricas, usinas nucleares e o Proálcool, um prematuro programa de energia alternativa que hoje nos traz algumas vantagens camparativas, apesar de danos ambientais.
Como as necessidades de importações não refluíram, pelo contrário, implicou em novas importações de bens de capital, nova dívida externa foi contraída em petrodólares, abundantes no mercado europeu. Agora, o vértice das relações externas do Brasil se virava para a Europa, pois a Casa Branca continuava sua recusa em colaborar com o nosso programa nuclear, e não aprovou o tratado que Geisel assinou com a Alemanha. Com a pressão dos EUA para o rompimento do acordo, o resultado foi o esgarçamento maior de nossas relações, com o fim do acordo militar que o Brasil possuía com os EUA. O governo brasileiro abandonou o discurso ufanista de “potência” e voltou a estreitar as relações com a América Latina para a obtenção de energia. Com o governo do general Figueiredo, em 1979, abalado pela segunda crise do petróleo, seu principal objetivo passou a ser a continuidade e a conclusão do processo de redemocratização.
A situação nacional e internacional era muito complicada e com a segunda crise do petróleo e a recessão mundial era impossível continuar vançando. Nos anos vindouros, com a mudança de padrão monetário dos EUA, pela doutrina Reagan, os juros internacionais subiriam, freiando o crescimento de toda a periferia e deixando o Brasil em situação desesperadora em relação ao cumprimento de seus compromissos externos e internos, pois a indústria fizera investimentos pesados com a expectativa de ampliação de mercados inexistente. Tudo isto foi um duro golpe no projeto do II PND. Reagan ainda criou instrumentos para a subjugação política e a extração de recursos do terceiro mundo, obrigados a remessas constantes de pagamentos de serviços da dívida, moratórias e, finalmente, a seguirem os padrões impostos pelos EUA.
Na América do Sul, a derrota da Argentina na “guerra das Malvinas” fez com que o Brasil percebesse que estava acontecendo uma rearticulação do sistema internacional fortemente desfavorável aos países em crescimento. Pela primeira vez na história da política externa brasileira, a América Latina era vista como prioridade. Mudando o vértice de sua política externa, aproximou-se dos países da América do Sul, e intensificou sua atuação no Oriente Médio, inclusive vendendo material bélico, além de outros produtos, tetando equlibrar sua balança comercial, desequlibrada com as importações de petróleo. Por outro lado, a relação de aproximação com a China supriria, por sua vez, o afastamento do Japão. Além do comércio, tratados e projetos conjuntos apresentaram resultados concretos.
A dificuldade das exportações somadas com o aumento do pagamento da dívida externa obrigou o ministro Delfim Netto a decretar moratória, conduzindo uma difícil negociação com o FMI para a obtenção de recursos. Assim, quando no lugar de Tancredo Neves - que faleceu após ser eleito por voto indireto - José Sarney, seu vice, assumiu o governo, novos empréstimos são necessários, mas foi impossível retomar um novo ciclo de crescimento. A política externa da nova república, limitada, apresentaria uma evolução singular, novamente mudando seu vértice, Olavo Setúbal acenou em direção a uma maior cooperação com os EUA e deu ênfase ao afastamento do denominado Terceiro Mundo. Mas isto duraria pouco e em meados dos anos 90, Brasil e Argentina criaram o MERCOSUL, o que gera conflito com os EUA, mas para o continente traz uma possibilidade de melhores condições de negociação de suas dívidas e de retomada de crescimento com maior integração. Ao longo de nossa história, os condiiconantes econômicos foram condicionates de muitas decisões. No compasso da economia, se aliando com quem desse suporte a nossa ambição de potência, o vértice de nossa política externa moveu-se e criou uma tradição pragmática.