segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Poder Global

O PODER GLOBAL*
Leonardo Medeiros, Pedro Xavier e Profª. Gloria Moraes

Muito já foi dito sobre o tema “poder global” e, durante a década de 90, muito mais foi discutido com respeito à questão da hegemonia dos EUA, sob o domínio das armas e do dólar, garantindo sua supremacia bélica e econômica no cenário mundial. Logo após a grande crise de 1929, cujo boom foi crescente nos primeiro anos da década de 30, os EUA reiniciaram seu projeto de potência, dessa vez com maior voracidade e com motores “a todo vapor”. Ao final da II Guerra Mundial, com a necessidade de reconstrução produtiva da Europa e de reestruturação interna do seu território, os EUA e seus capitais, representados por suas corporations, começaram a exercer de fato seu poder.
Mesmo que tenha havido limites em Bretton Woods e que a URSS tenha forçado o reconhecimento de potência igualmente vitoriosa no pós II Guerra, os EUA exerceram seu poder no mundo capitalista sem muitos questionamentos. Até o momento em que o projeto norte americano se sentiu ameçado por movimentos nacionalistas, que marcaram o fim do colonialismo europeu, e que muitas vezes guinavam em direção a projetos socialistas, os EUA continuou com sua vontade expansiva. Entretanto, a disputa por áreas de interesse com a URSS, seguidamente na Ásia, e, particularmente, sua derrota na guerra do Vietnam enfraqueceram seu poder em nível global. A discussão ao final dos anos 1970 tendia a apontar o fim da hegmonia dos EUA e o surgimento de uma nova potência capitalista. Na competição, ferozmente, apareciam a Alemanha e o Japão, os derrotados na II Guerra e parceiro privilegiados dos EUA.
Em outra vertente, as crises do petróleo, de 1973/1974 e de 1979, redefiniram geopoliticamente a presença dos europeus, dos EUA e da URSS no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que a criação da OPEP tentava impor novos padrões de repartição e de participação em sua maior riqueza: o “ouro negro”. Quando os EUA abandonaram as regras acordadas em Bretton Woods e rompeu com o “padrão dólar fixo”, caminhando em direção à adoçã do padrão flutuante, seu novo projeto de retomada de hegemonia já se encontrava em curso. Mesmo que aparentemente a grande potência navegasse com redução de marcha de seus motores, atravessando uma fase de desaceleração de crescimento, outra arrancada estava em curso.
É importante frisar que a grande aliança formada pelos EUA, Japão e Alemanha no período pós II Guerra funcionou de forma vigorosa até a década de 1970, quando Alemanha e Japão, ao mesmo tempo em que ganhavam o mundo com seus produtos carregados de inovações tecnológicas, perdiam o fôlego e começavam a amargar seus processos de declínio no crescimento, sem que deixassem, porém, de ser dois grandes players. Como nos ensinou Norbert Elias, no jogo da competição entre os Estados nacionais, quem não sobe cai. Depois dos acordos Plaza-Paris, quando os EUA enquadraram o marco alemão e o yen, na década de 90, ambas as economias quase chegaram à estagnação, com o Japão sofrendo mais que a Alemanha, que ainda se valia de vantagens comparativas dentro do território. A recessão em que o mundo foi jogado, depois da recuperação do dólar como padrão monetário e da abertura financeira e comercial de seus mercados, deram tempo e fôlego para que a economia norte-americana se recuperasse e utilizasse as vantagens comparativas que tinha, exercendo o seu poder de fato. Impôs ao mundo seus padrões e não precisou ele próprio travar os seus mercados, pois seu projeto já se encontrava em marcha.
Quase quatro décadas depois, novamente, se discute sobre a quebra do poder do “hegemon”. Historiadores, sociólogos, pesquisadores e economistas, muitos dizem que a “era da supremacia hegemônica dos EUA” chegou ao fim. Dada a crise global surgida no epicentro do sistema, cuja origem está nos EUA e nos mercados de capitais globais desregulamentados e finaceirizados, não podemos afirmar que esteja à vista o fim da hegemonia dos EUA. Ainda vemos fundos, reservas e investimentos utilizando os mesmos padrões de operação norte-americanos. Ainda vemos suas ferramentas de gestão se difundindo como padrão global. Como se decreta o fim da hegemonia norte-americana quando ainda vemos seus títulos do Tesouro circulando e sendo negociados como garantias de não-perdas? Quem se iguala hoje em poderio bélico aos EUA e quando alguém poderá se igualar?
Vale lembrar que vivemos em um mundo onde cada um possui suas metas e objetivos, onde já passamos por vários momentos com diferentes “hegemons”, e que a estabilidade hegemônica da Inglatera, no século XIX, dificlmente se reproduzirá. Desde o Império Romano até o “Império” dos EUA, já vimos diversas potências surgindo e declinando, porém todos de forma belicosa e nenhum com tanto poder quanto os EUA ainda possuem. Quebrou-se o “padrão-ouro” e, com um sistema cada vez mais especulativo surgiu o “padrão-dólar”, depois flutuando ao sabor da oferta e da demanda e impulsionando a riqueza financeirizada. Abalrroada, sem dúvida, mas que outra moeda tem a força global do dólar? O euro, que nem na União Européia consegue ter uma coordenação clara. O yen? Quando surge na Ásia o yuan ancorado no dólar?
É próprio do “sistema mundo”, a não ser em raros momentos, a convivência anárquica entre diversos Estados nacionais, cada qual com seus interesses e lutando pro sua soberania, buscando seus espaços e ampliação de áreas de influência em um sistema cada vez mais globalizado, daí, potencializar ações é essencial para a sobrevivência. O caráter cíclico que se deu à necessidade de estabilidade sistêmica, pelos defensores da teoria da estabilidade hegemônica do poder global, não faz considerações importantes, como o dito por Fiori (2008)“ [...] em geral, esta teoria destaca as contribuições positivas do hegemon, para o bom funcionamento e para “governaça global” do sistema, sem dar maior atenção à dinâmica contraditória das relações existentes entre o “hegemon” e os demais estados que participam do sistema mundial. Por isto também, esta teoria funcional e evolucionista da “hegemonia”, não consegue dar conta do movimento contínuo de competição, luta e expansão dos estados e economias nacionais que já conquistaram a condição de “grandes potências”.”
Portanto, antes de falarmos sobre questões relativas à hegemonia e poder, precisamos definir, o que e de quem é o poder? Em um mundo sistêmico onde cada um impõe sua força como pode, onde cada Estado nacional pretende ser soberano, ou pelo menos conquistar a soberania sobre seu território, não pode ser julgado, nem condenado a “cumprir pena”, pois a única forma que temos para chegar de fato ao ponto no qual podemos dizer que um Estado nação é soberano e detentor do poder global é quando há um acordo entre todos ou então quando todos pela força das armas e da moeda se subordinam às ações e desejos do Estado eleito. Porém, enquanto isso não chega, se é que chegará, continuemos a chamar de “hegemon” ao estado nacional que mais perto dessa condição se paroxima. Hoje, mesmo em crise, os EUA continuam a ser o detentor da maior economia, do maior poder bélico e não houve condições de desvalorização de sua moeda. O que nos mostra Fiori é que o que podemos fazer é o dever de casa, não quebrar correntes de comércio e esperar que um possível “novo Bretton Woods” normatize o poder global. Assim, cada Estado nacional poderá prosseguir com seu projeto de crescimento e, o Brasil, ou nós brasileiros possamos mais uma vez deixar de trocar óleo por frango e exportar ambos, até que a próxima crise exija novamente os mesmo processos reparadores e de tomada de decisão pelos quais passamos atualmente.


* Baseado em texto do Prof. J. L. Fiori denominado Sobre o Poder Global (2008)

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