segunda-feira, 18 de maio de 2009

Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes

Palavra do gestor:
Os paradoxos, na crise, se mostram relevantes
Alexandre E. Santo15/05/2009
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Em períodos de crise severa, como a atual, uma série de teorias, mitos, dogmas e paradoxos são questionados e revisitados para embaralhar ainda mais a cabeça dos investidores, o que dificulta a vida do profissional que trabalha com aconselhamento financeiro. Nessas horas, quando muitos paradigmas são bombardeados quase que diariamente, é preciso separar o joio do trigo, ou seja, selecionar o que é para ser levado em conta, para não poluir a análise. O pior é que, nas grandes dificuldades, alguns apelam para a famosa "sensibilidade". Recordo-me de um antigo professor que dizia que o único sujeito que ganhou dinheiro com "feelings" foi o Morris Albert, autor da canção que levava esse nome.
Aqui mesmo, nesta coluna, vários colegas discutiram alguns desses tópicos como a importância das empresas pagarem bons dividendos, mitos sobre governança corporativa, entre outros assuntos. Pretendo contribuir com um aspecto que tem a ver com o recente rali da bolsa.
No estudo da macroeconomia, salientam-se alguns famosos paradoxos. Um dos mais conhecidos é o da poupança, que ensina que quando ela está em processo de formação, a economia se ressente, pois é como se houvesse um vazamento de recursos (um agente econômico guardando dinheiro implica que ele consumirá menos, o que gerará menos riqueza). A despeito de não podermos afirmar que é a formação de poupança a responsável pela criação dos investimentos, empiricamente o que se observa é que os países com alto grau de crescimento possuem elevado nível de poupança em relação ao PIB. Assim, podemos inferir que, num período de revés econômico, tal paradoxo ganhe relevância.
Outro ponto que merece destaque, em especial neste momento, diz respeito à discussão sobre a baixa eficácia da política monetária no longo prazo - o paradoxo de Gibson. De forma simples, pode ser assim explicado: a emissão monetária/redução dos juros em magnitude importante provocará mais investimentos produtivos e expansão da renda por meio do efeito-liquidez. Assim sendo, no curto prazo, a política monetária seria eficiente. No longo prazo, contudo, o aumento da renda provocará um aumento de consumo e na demanda por crédito, o que muito provavelmente pressionará as taxas de juros reais. Adicione-se a este efeito-renda um aumento das expectativas inflacionárias, o que obrigará o Banco Central a elevar os juros nominais, contraindo a demanda agregada. Daí o efeito paradoxal.
Em minha visão, as posturas adotadas pelos principais bancos centrais - reduzindo drasticamente as taxas de juros nos últimos meses - estão provocando um brutal efeito-liquidez, com impactos significativos sobre os sistemas financeiros e os ativos negociados. Lembremo-nos que nos últimos anos as bolsas de valores foram extremamente beneficiadas pela elevada liquidez internacional e até mesmo por operações de "carry-trade". A meu ver, esse é o principal fator para o recente rali dos mercados acionários. Mas por quê? Qual a diferença de agora?
A importante diferença é que, no passado, os "valuations" referendavam a alta das ações, ou seja, o chamado fundamento era um aliado de primeira ordem. Comprava-se não somente por uma questão de alocação de portfólio, de não ter o que fazer com o dinheiro pelos juros reais serem baixíssimos, mas, sim, porque os lucros e a geração de caixa eram crescentes e corroboravam o investimento. Agora não mais! Fiz um estudo com as estimativas de lucros projetados das principais casas de análise do mercado e a média encontrada para 2009 sinaliza uma redução de 17% nos lucros das empresas brasileiras. Algumas, como a Vale, podem perder o dobro dessa média.
Os dois paradoxos acima citados podem estar se entrelaçando, o que é perigoso. Essa crise não é trivial, como a da década de 1980, por exemplo. Naquela época, a redução das taxas de juros podia elevar o nível de renda, uma vez que o endividamento privado americano era perto de 100% do PIB. Agora, como essa relação é quase o triplo, os agentes econômicos endividados poderão se aproveitar de juros menores para reduzir suas dívidas abissais (paradoxo da poupança). Ademais, com o excesso de liquidez se juntando aos enormes gastos públicos, poderemos observar, num período de tempo mais curto do que se supõe, os juros se elevando.
Neste momento, me parece que há muito "achismo" em relação à bolsa pouquíssimo fundamentado. Faz-me recordar uma entrevista folclórica de um jogador após a partida. Perguntado pelo repórter o que ele havia achado, ele respondeu: "Eu não achei nada, mas o goleiro achou um crucifixo na grande área. Qualquer hora acho alguma coisa..."
Alexandre Espirito Santo é diretor do Curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ e economista da Way Investimentos
E-mail aesanto@wayinves timentos.com.br

Prof. Alexandre Espirito Santo
Diretor Acadêmico do curso de RI

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